A farsa do pensamento positivo
De nada adianta portar palavras lindas e positivas se o interior estiver escuro e nem se acreditar no que se fala
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de setembro de 2019
De nada adianta portar palavras lindas e positivas se o interior estiver escuro e nem se acreditar no que se fala
Sylvio do Amaral Schreiner
O pensamento positivo é supervalorizado e causa uma tremenda confusão. São muitos os que apregoam que ele seja a panaceia universal para resolver todos os problemas da vida e que para tê-lo é só uma questão de cultivá-lo. Foram, então, criadas inúmeras técnicas para gerar pensamentos positivos e mudar a vida da água para o vinho. Só que isso não funciona e só serve para enganar e explorar.
Botar um belo sorriso na cara é fácil, mas o que há por detrás do sorriso? Mudar de vida não é simplesmente saber fazer a cara certa, é muito mais profundo do que isso. A mudança, pelo menos a verdadeira, é sempre de dentro para fora e não de fora para dentro. Mudar os músculos faciais é algo externo. Encher-se de pensamentos positivos é pegar algo de fora e forçar dentro. Isso não é mudar.
Enquanto não for mexido no que existe de mais interno dentro de cada um nada acontecerá. Como me relaciono com a vida? O resultado dessa relação me faz bem, me proporciona crescimento? Ou me faz mal e desperta minhas defesas me impedindo de viver? Numa psicoterapia nada é forçado para que o paciente pense assim ou assado, mas há a possibilidade de se avaliar a forma como a vida vem sendo vivida e com isso percebe-se que muitas coisas podem ser de outro jeito, muito melhor.
Psicoterapia não é lugar para pensamentos positivos, porém é um espaço para o autoconhecimento. Afinal, o que nos dirige, como Freud tão bem descreveu, é o nosso inconsciente. De nada adianta portar palavras lindas e positivas se o interior estiver escuro e nem se acreditar no que se fala. No fim quem vai moldar nossas atitudes e relacionamentos com a vida é o inconsciente. Para Freud o objetivo da psicanálise é tornar o inconsciente consciente. Assim, conhecendo-se mais, há transformações verdadeiras.
Esse saber não é só da psicanálise, mas existe há milênios. No oráculo de Delfos, na antiga Grécia, supunha-se existir gravado em suas pedras a frase “Conhece-te a ti mesmo”; no budismo, a prática da meditação visa o encontro de alguém consigo próprio. O pensamento positivo, por sua vez, é inócuo. Não digo com isso que uma pessoa deve então se entregar às lamentações da vida, mas não é com pensamentos positivos que alguém muda. Como já diz o ditado, “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento”, ou seja: de nada adianta uma superfície de pensamentos positivos se por dentro só há um filme de terror sendo exibido continuamente.
Não se trata, então, de substituir um pensamento pelo outro. Não é uma troca, mas uma mudança em como se vive, em como se vê a vida. Quem aprende a se conhecer de fato não precisa pensar nem positivo nem negativo, mas pode lidar com o que sente e vive, em dado momento, de forma realista. O que precisamos é ser realistas em como viver a vida.