A fantasia de se comportar como um bebê
A rigidez imposta pela vida adulta – com suas cobranças, exigências e responsabilidades – pode ser vivida como um fardo insuportável
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025
A rigidez imposta pela vida adulta – com suas cobranças, exigências e responsabilidades – pode ser vivida como um fardo insuportável
Sylvio do Amaral Schreiner 

A fantasia de ser um bebê
Você já ouviu sobre adultos que se vestem e fingem que são bebês? A experiência de se vestir, se comportar ou se sentir como um bebê ou uma criança pequena na vida adulta pode parecer um fenômeno insólito ou meramente excêntrico. No entanto, uma escuta psicanalítica atenta revela que, por trás dessa fantasia, há significados que atravessam a constituição psíquica do sujeito e sua relação com a dependência, o cuidado e a fragilidade.
Frequentemente, pessoas que se entregam a essas fantasias levam vidas em que exercem papéis de grande responsabilidade, ocupando posições de liderança ou desempenhando funções que exigem autonomia e força. Socialmente, são vistas como indivíduos capazes, resilientes, muitas vezes admirados por sua competência e autossuficiência. No entanto, a mente humana não opera apenas na dimensão consciente e racional; ela é atravessada por desejos, angústias e conflitos inconscientes, que encontram vias peculiares de expressão.
Na clínica psicanalítica, observamos que, para algumas pessoas, a rigidez imposta pela vida adulta – com suas cobranças, exigências e responsabilidades – pode ser vivida como um fardo insuportável. O recurso de "regredir" à posição infantil pode então funcionar como uma forma de alívio psíquico, um espaço em que a pessoa se permite abandonar temporariamente a necessidade de controle e entrega-se ao desejo de ser cuidada, protegida e acolhida sem exigências. Essa busca pode estar relacionada a experiências precoces de privação emocional, em que o cuidado materno ou paterno foi insuficiente ou vivenciado como precário, deixando um vazio que nunca pôde ser plenamente preenchido.
O bebê, em seus primeiros meses de vida, precisa de um ambiente que se molde às suas necessidades, oferecendo continência e proteção. Quando essa experiência é falha ou marcada por rupturas abruptas, o psiquismo pode carregar essa carência para a vida adulta. A fantasia de ser um bebê pode representar a tentativa de recriar, em um espaço íntimo e controlado, uma experiência que nunca pôde ser plenamente vivida. A pessoa se coloca, assim, na posição daquele que recebe um cuidado incondicional, experimentando, ainda que por um curto período, o que não pôde ser vivido na infância.
Por outro lado, Freud nos ensina que a sexualidade humana é profundamente marcada pela plasticidade e pela regressão. Em alguns casos, essa fantasia pode ter um componente erótico, em que a posição infantil é erotizada como forma de lidar com angústias inconscientes ligadas à vulnerabilidade e à entrega. Para algumas pessoas, o prazer está justamente na anulação temporária da necessidade de ser adulto, na inversão dos papéis, na dissolução das barreiras que delimitam a identidade e a autonomia.
No entanto, nem toda experiência de regressão é patológica. A capacidade de brincar, de transitar entre diferentes estados emocionais e de se permitir experimentar fantasias sem culpa ou vergonha pode ser um indicativo de um funcionamento psíquico flexível. O problema se instaura quando essa necessidade de regressão se torna compulsiva ou quando substitui, por completo, a possibilidade de enfrentar as dores e frustrações inerentes à vida adulta.
A psicanálise não busca julgar ou corrigir fantasias, mas compreender o que está por trás delas. O espaço analítico permite que a pessoa explore o que essa vivência significa para ela, quais lacunas emocionais busca preencher e como pode integrar essa dimensão de seu mundo interno sem que isso signifique um afastamento radical da realidade.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


