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Londrina

Sylvio do Amaral Schreiner - Mundo Vivo

m de leitura Atualizado em 17/01/2022, 09:29

A escultura e a psicanálise

Triste é quando alguém está tal como uma meia estátua, metade fora e metade dentro do bloco de pedra

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Sylvio do Amaral Schreiner
AUTOR autor do artigo

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O psicanalista Wilfred Bion (1897–1979) foi um grande pensador da condição humana e contribuiu imensamente para o enriquecimento e desenvolvimento da psicanálise. Para falar do trabalho do psicanalista, Bion uma vez comparou o psicanalista com um escultor – artista que dá vida a estátuas e imagens. Algumas esculturas são tão realistas que parecem ter vida própria, como se fossem mesmo pessoas ou animais. Michelangelo talvez seja um dos escultores mais conhecidos ao redor do mundo e reza a lenda que quando terminou a obra do Davi disse para ela falar de tão realística que estava. Os detalhes anatômicos são realmente impressionantes e quase não seria de surpreender se ela falasse e andasse por aí. E qual o trabalho do psicanalista? É ajudar o analisando a esculpir a si mesmo.

Imagem ilustrativa da imagem A escultura e a psicanálise Imagem ilustrativa da imagem A escultura e a psicanálise
|  Foto: iStock
 

Um bloco de mármore, por exemplo, é só um pedaço de rocha, mas que quando trabalhado, ou seja, esculpido, ganha outras formas e detalhes que é como se ganhasse vida. Um analisando chega muitas vezes nos consultórios de seus psicanalistas como um bloco de pedra sem forma e sem vida, porém na análise pode ir ganhando um sentido que transforma muitas situações. Não que o psicanalista vá moldando o analisando, mas sim ajudando-o a descobrir que forma ele quer e precisa tomar.

Enquanto o artista escultor molda seu material para dar a forma que quer, o psicanalista escuta o seu analisando para ajudá-lo a compreender que forma ele pode conquistar. Um esculpe o outro, escuta e assim vidas podem ir tomando formas novas e surpreendentes. É a arte imitando a vida e a vida imitando a arte.

Na cidade italiana de Florença há algumas esculturas inacabadas de Michelangelo que se chamam Os Escravos. Nessas obras, mesmo que não terminadas, é lindo ver figuras de homens meio que saindo das pedras, como se estivessem se libertando delas. Mesmo sendo estátuas de mármore sólidas, elas contêm um movimento que exibem a força de estar nascendo. Bion usou essas obras para falar que o mesmo acontece num processo analítico.

Numa análise o psicanalista ajuda e assiste o analisando a nascer. Às vezes situações que o prendiam e o deixavam imóveis começam a perder a força, ou melhor, o analisando começa a ganhar força e sai daquilo que inicialmente o prendia e não o deixava viver plenamente. O analisando deixa de ser escravo da própria história de vida para ser senhor de si mesmo. Detalhes que antes não eram observados e reconhecidos na vida de alguém começam a ganhar nitidez e desenrola inúmeras mudanças no desenvolvimento. É algo extraordinário.

Tudo aquilo que é ordinário é comum, mas tudo aquilo que é extraordinário vai além do comum. Nascer dentro de um processo analítico é algo que vai muito além do comum e traz todo um significado que muda completamente como uma pessoa pode viver. Triste é quando alguém está tal como uma meia estátua, metade fora e metade dentro do bloco de pedra. Não está livre nem consegue se libertar daquilo que o aprisiona. Numa obra artística, como Os Escravos de Michelangelo, é belo, mas na vida de uma pessoa é desalentador.