A criança que nos dirige
A vida mental adulta é muito menos adulta do que se imagina; é comandada por fantasias, desejos, traumas e angústias formadas na infância
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de março de 2023
A vida mental adulta é muito menos adulta do que se imagina; é comandada por fantasias, desejos, traumas e angústias formadas na infância
Sylvio do Amaral Schreiner 

O psicanalista Sándor Ferenczi escreveu em 1909 ‘Raspe o adulto e nele você encontrará a criança’. Desde os primórdios da psicanálise entendeu-se que as primeiras experiências infantis são de suma importância para o que se pode acontecer na vida adulta. Muita coisa que o adulto vive e sofre teve raízes nos primeiros anos de vida e compreender a vida mental infantil enriquece muito a sabedoria que podemos vislumbrar de como nossa mente funciona.
Melanie Klein, importante psicanalista, que se debruçou com muita propriedade sobre a psicanálise de crianças, chegou em 1959 escrever um texto intitulado Nosso mundo adulto e suas raízes na infância. Nesse trabalho relevante para a psicanálise ela mostra que já a partir dos primeiros meses de vida ocorrem na mente do bebê eventos importantes que poderão moldar como se dará a vida adulta futura. Não daria para citar aqui todos os grandes psicanalistas e pensadores que com grande sensibilidade e inteligência apontaram que as experiências vividas pela criança irão repercutir em anos posteriores, ás vezes, até mesmo impedindo que o adulto se forme.
A vida mental adulta é, na verdade, muito menos adulta do que se imagina. Ela é comandada por fantasias, desejos, traumas e angústias que foram formadas na infância. Em alguns casos o adulto só é adulto na idade cronológica, na carteira de identidade, mas não na personalidade propriamente dita. Aliás, o que mais existem são adultos que jamais puderam se livrar de suas dores e carências infantis e tentam buscar no mundo adulto satisfazer faltas que não mais cabem nesse novo momento da vida. O resultado disso é sempre uma vida repleta de insatisfações.
Essas insatisfações se dão de várias maneiras. Há pessoas que buscam ser ‘amadas’ a qualquer custo em seus trabalhos e vidas amorosas porque sentem que não o foram (e ás vezes não foram mesmo) em suas infâncias. Claro que na vida amorosa todo mundo quer ser amado, mas muitos exigem ser amados de uma forma que compensasse a criança que um dia foi e não amados como o adulto que agora existe. Quando isso ocorre acaba-se havendo muitas exigências que são descabidas nos relacionamentos amorosos e abre-se espaço para brigas e desentendimentos que chegam até inviabilizar os relacionamentos. No mundo do trabalho quando uma pessoa busca sempre aprovação de seus pares ou superiores pode estar querendo satisfazer carências passadas e insistindo na obtenção de aprovação acaba se colocando em apuros ou fazendo coisas que nem precisariam. É até meio cliché o que estou dizendo aqui, porém é só para dar uma ideia do quanto nos adultos existem partes infantis que estão ativas influenciando como se relacionam e vivem a vida.
Quando alguém se coloca num processo psicanalítico vai, uma hora ou outra, ‘voltar’ à sua infância. Vai reviver situações emocionais que no passado foram marcantes e relevantes e tem-se a chance de construir ou reconstruir o que não ficou bom. É um processo que demanda paciência e cuidado. Não que isso significa que a pessoa vai ficar apenas falando da infância, mas vai poder relacionar o que faltou antes e perceber como resolver no agora para que isso não continue sendo um fator determinante de quem a pessoa pode vir a ser. Se podemos compreender a criança em nós podemos atendê-la e assim essa criança atendida abrirá espaço para que possamos ser verdadeiramente adultos
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Sylvio Schreiner é psicanalista e atende há mais de 20 anos em Londrina
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