- 'O que você está procurando?'
A busca é uma das forças fundamentais que nos impulsionam na vida
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de janeiro de 2025
A busca é uma das forças fundamentais que nos impulsionam na vida
Sylvio do Amaral Schreiner 

“O que você está procurando, está procurando você” é uma frase do poeta Rumi, do século XIII, que ressoa profundamente com a visão psicanalítica da relação entre o mundo interno e externo. Rumi, com sua sabedoria poética, aponta para uma verdade que Freud e tantos outros exploraram: o que vivemos no mundo externo reflete, de maneira misteriosa e, muitas vezes, inconsciente, aquilo que habita em nosso mundo interno.
A busca é uma das forças fundamentais que nos impulsionam na vida. Buscamos amor, reconhecimento, segurança, sentido. Contudo, como a psicanálise nos ensina, essa busca frequentemente não é tão linear ou objetiva quanto imaginamos. O que desejamos fora de nós está intrinsecamente ligado às marcas deixadas em nossa mente pelas experiências mais primitivas de vida: os cuidados recebidos, as frustrações suportadas e os laços estabelecidos. Somos, como Freud disse, governados não apenas pelo consciente, mas por um vasto território inconsciente que molda nossos desejos, medos e escolhas.
É na dinâmica entre o interno e o externo que se revela a essência de nossa subjetividade. Muitas vezes, o que encontramos fora não é exatamente o que procurávamos, mas sim uma projeção de aspectos de nós mesmos. Isso acontece, por exemplo, nos relacionamentos amorosos, onde buscamos no outro traços que nos conectam às experiências emocionais de infância, seja para reparar feridas antigas, seja para repetir dinâmicas que, embora dolorosas, nos são familiares. O outro funciona como um espelho: enxergamos nele tanto o que queremos, quanto o que tememos enfrentar em nós mesmos.
Essa interação entre interno e externo não está limitada às relações interpessoais. A forma como vivemos o trabalho, os hobbies, os lugares que frequentamos e as narrativas que criamos para dar sentido à vida também são expressões de nosso funcionamento psíquico. Um exemplo disso é a forma como uma pessoa pode interpretar repetidos fracassos como confirmações de sua inadequação — um reflexo de um superego severo e críticas internalizadas desde cedo. Por outro lado, alguém que cultiva a curiosidade e a resiliência diante dos desafios reflete, muitas vezes, um self mais integrado e acolhedor.
A psicanálise oferece um espaço para explorar essa relação. O consultório é um lugar onde o que “procuramos” encontra um lugar para ser ouvido. O analista, em sua postura de escuta atenta, torna-se um continente para os aspectos mais difíceis de serem reconhecidos em nós mesmos. Em muitos casos, o que o paciente acredita estar buscando na análise — alívio de um sintoma, compreensão de um conflito — revela-se como a busca por si mesmo, por um encontro com partes esquecidas ou rejeitadas de sua história. A análise, assim, não nos dá respostas, mas nos ajuda a ver como o que procuramos fora já está, de algum modo, dentro de nós.
A frase de Rumi também nos convida a pensar na forma como nossas escolhas moldam o que encontramos no caminho. Se o que procuramos é permeado por sentimentos de vazio ou angústia, não é incomum que encontremos relações ou situações que reforcem essa percepção. Por outro lado, quando somos capazes de olhar para dentro com honestidade e compaixão, tendemos a criar experiências que enriquecem e ampliam nosso sentido de pertencimento e significado.
Esse ciclo de busca e encontro é um movimento criativo. Ele nos permite transformar o que parecia fixo em algo novo, atribuir significados a experiências dolorosas e encontrar beleza em territórios desconhecidos. Como no verso de Rumi, o que procuramos está sempre nos procurando, mas cabe a nós — com coragem e abertura — aceitar o convite para esse encontro com o que é mais íntimo, mais profundo, e, muitas vezes, mais difícil de enxergar. A vida, então, deixa de ser apenas uma sucessão de eventos externos e torna-se um espelho que reflete nossa capacidade de desejar, amar, sofrer e transformar. É nesse espelho que encontramos, finalmente, não apenas o que procurávamos, mas a nós mesmos.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


