Vivemos em tempos em que a performance tomou o lugar do afeto. O sucesso, as boas notas, os relacionamentos visíveis, a vida social ativa — tudo isso pode parecer, do lado de fora, sinal de saúde. Contudo, sabemos que o sofrimento não é sempre visível. Ele se esconde, muitas vezes, atrás de sorrisos e entre as palavras. Há dores que não se dizem, há angústias que não encontram forma e que passam despercebidas. Principalmente quando não há escuta verdadeira.

A presença de um adulto significativo na vida de uma criança, de um adolescente, de um jovem adulto, não se mede por quantidade de tempo ou pelas aparências de uma família bem estruturada. Mede-se pela disponibilidade emocional. Pela capacidade de estar ali, de fato, com o outro — não apenas para resolver o que é prático, mas para acolher o que é indizível. Estar presente é poder sustentar o sofrimento do filho sem negá-lo, é suportar não saber o que fazer e, mesmo assim, permanecer.

Muitos pais, com a intenção genuína de proteger os filhos, tentam criar um ambiente onde tudo parece estar bem. Mas, ao fazer isso, fecham a porta para a verdade emocional, criando um pacto de silêncio. A criança, o adolescente, o jovem, pode começar a acreditar que o sofrimento é um erro, uma falha que precisa ser escondida para não decepcionar os outros. Isso pode gerar um sentimento devastador de solidão: estar cercado de pessoas, mas ainda assim não ter para onde ir com a própria dor.

Não existe relação perfeita, nem família perfeita. E a tentativa de sustentar essa imagem pode custar caro. O vínculo real se constrói na imperfeição, na escuta dos conflitos, na presença que não exige que o outro esteja sempre bem. A saúde mental não floresce no ideal, mas na verdade. A verdade, muitas vezes difícil, desconfortável, dolorosa — mas também libertadora.

A clínica psicanalítica escuta esses silêncios. Escuta o que foi perdido na relação, o que não foi dito, os momentos em que alguém quis ser escutado e não foi. Escuta também os gritos que ninguém percebeu. E muitas vezes, esses gritos se tornam sintomas. Outras vezes, tornam-se atos trágicos, como o suicídio. Quando isso acontece, o que resta aos que ficam é o luto e, junto com ele, a culpa — essa tentativa de dar forma a algo do irrecuperável.

Não se trata de culpabilizar. Trata-se de reconhecer que a presença amorosa, a escuta verdadeira e a disposição para se afetar pelo outro são elementos que podem fazer diferença. Que um telefonema atendido pode não salvar o mundo, mas pode sustentar um fio de vida. Que uma pergunta sincera — "como você está, de verdade?" — pode abrir uma fresta por onde o outro respire.

É preciso dizer, com coragem: não estamos imunes à dor dos nossos filhos. Não podemos blindá-los da angústia, mas podemos estar ao lado deles quando ela vier. Podemos criar espaço para o sofrimento, para a dúvida, para a vulnerabilidade. Porque a verdadeira força de um vínculo está em poder atravessar, juntos, o que não tem resposta fácil.

A psicanálise não oferece soluções prontas, mas oferece um espaço onde a verdade pode existir sem precisar ser resolvida de imediato. Talvez seja isso que muitos filhos precisam: menos soluções, mais presença. Menos imagem, mais verdade. Menos títulos, mais escuta. Porque, no fim, o que resta — e o que importa — são os momentos vividos e compartilhados, não os que foram perdidos pela pressa, pelo medo ou pela ilusão de que estava tudo bem.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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