Riquezas do passado pioneiro a preservar para Londrina
A maior riqueza herdada pelos londrinenses é o gosto por iniciativas, típico dos imigrantes e migrantes
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de março de 2026
A maior riqueza herdada pelos londrinenses é o gosto por iniciativas, típico dos imigrantes e migrantes
Domingos Pellegrini 

Grande riqueza de Londrina é o Patrimônio Três Bocas, que existiu desde a primeira caravana em 1929 até virar município em 1934: é fonte de lições e exemplos que orientaram o passado e podem enriquecer o futuro com o que há de mais valioso, valores humanos.
A foto é da primeira venda, como se dizia, do libanês David Dequech, que tinha pai rico em São Paulo mas veio empreender no Sertão do Tibagi, numa cidadezinha em clareira cercada de mata. Dizia ele que na foto estava “toda a população” da época, precursores das 30 nacionalidades que cruzariam de balsa o Rio Tibagi para aqui se juntar a gente de todo o país. Essa diversidade, que se manteve convivente mesmo quando seus países guerrearam na Segunda Guerra, foi e continua sendo a primeira grande riqueza londrinense.
Na primeira clareira com ranchos de troncos de palmito, os moradores deixavam vassoura em pé fora da porta, a indicar ausência temporária e assim também confiança nos vizinhos. Quando a cidadezinha foi isolada pela Revolução Paulista em 1932, o prefeito nomeado Willie Davids organizou duas expedições de muleiros para, por trilhas de mata, buscar víveres até em São Jerônimo da Serra, num exemplo da cultura londrinense de iniciativa.
Os primeiros lotes rurais foram onde depois se instalou o Aeroporto José Richa, com os ranchos ainda tão cercados de mata que onças apareciam curiosas à noite. Ali pioneiros japoneses esperavam colheitas de suas hortas e roças, e um dia, indo a pé para a cidade com o filho, Keimi Kazahaya atirou num porco-do-mato. Em vez de conseguir comida, conseguiu foi enfurecer o bando, daí precisando subir em árvore para passar a noite até irem embora os porcos ferozes. Essa garra para enfrentar perigos desconhecidos também era própria dos pioneiros londrinenses.
A mesma garra tinha Álvaro Godoy, que abriu fazenda alguns anos antes da clareira de Londrina, e de lá vinha por picada na mata, com porcada a vender em Jataizinho. Os porcos seguiam o cheiro de dois sacos de milho molhado levados por um burro, e o trajeto de vinte e poucos quilômetros levava dois dias com pernoite em barraca cercada pelos porcos, que podiam atrair onça, então o sono era com arma ao alcance da mão. E depois no Rio Tibagi, onde ainda não havia ponte nem balsa os porcos tinham de ser levados a Jataizinho de canoa. Essa criatividade diante de desafios também seria típica de Londrina.
Criativos também seriam os pioneiros quando, durante a mesma Revolução Paulista, devido à falta de víveres recorreram aos palmitos abundantes na mata, comendo palmito feito de todo jeito e até doce de palmito feito com mel de abelhas jataí da mata. Essa capacidade de improvisação, bem brasileira, é outra riqueza londrinense.
Mas decerto a maior riqueza herdada pelos londrinenses é o gosto por iniciativas, típico dos imigrantes e migrantes, gente que encarou mudar de terra e de vida por um futuro melhor, herança histórica a assumir de corpo e alma, nem precisando mudar de terra, já nesta ótima terra-vermelha que o planeta nos deu há mais de cem milhões de anos.


