RÁDIO DIÁRIO -

O sol há de brilhar mais uma vez


No dia 27 de março comemora-se o Dia Internacional do Teatro. Foi lindo ver os amigos e colegas de ofício, nas redes sociais, postando fotos de eventos relacionados a data. Boa parte das postagens emprega a palavra “saudade”, não sem boas razões. Afinal, teatro mesmo, em seu sentido genuíno, o que promove o encontro presencial entre pessoas para comungar um momento único e irrepetível, esse está suspenso há mais de um ano e não tem perspectivas de retorno a curto ou médio prazo (não em nosso país, em todo caso, onde a vacinação anda a passos lentos).  


Uma coisa é certa: teatro é ao vivo. O fenômeno “live”, transmissão remota do “ao vivo”, ainda que para uma grande audiência, é outra coisa, um formato que vem crescendo mais e mais, promete ampliar o mercado daqui pra frente e gerar adesões virtuais de todas as partes do mundo, o que não é pouca coisa. Mas a performance online, ao menos por enquanto, tem sido mais uma saída para gerar receita emergencial aos artistas e uma opção válida para os espectadores, ainda mais nesses tempos de incontornáveis restrições.    

     

Apesar disso, tenho às vezes a nítida impressão de que a calamitosa situação dos artistas de teatro, dança, música, carnaval e eventos em geral, classe trabalhadora que vive de aglomerações, não é devidamente considerada pelos poderes públicos, tampouco pela sociedade civil. Isso se justifica pelo fato das artes não serem consideradas atividades essenciais, o que me parece, a um só tempo, compreensível e assustador. Tal revelação torna-se flagrante em tempos de peste: o ser humano não vive sem comida, remédios e materiais de construção, mas pode perfeitamente viver sem arte. Não é exatamente uma constatação confortável, e tem consequências (psicológicas e financeiras) nefastas para os artistas.   

 

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. | Juliana Boligian/ Divulgação
 


O fato de o lazer, o entretenimento e a diversão serem considerados não-essenciais (acima de tudo por gerarem aglomerações) é justíssimo por um lado e um tanto contraditório por outro. Senão, vejamos: o que fazem as famílias em casa para se distraírem da constante apreensão e do tédio sem saída causados pela pandemia? Assistem a filmes, novelas, teatro online, Big Brother Brasil e shows de dança e música fartamente disponíveis (e, muitas vezes, gratuitos) na web. E do que consiste essa lista? De eventos cujo caráter é eminentemente artístico. Logo, as artes não deveriam ser consideradas não-essenciais, pois além de terem uma inestimável função social, têm sido, no decorrer dessa pandemia, uma das poucas opções de lazer que restam aos cidadãos. 


E só pra não deixar de constar, a função social da arte é basicamente proporcionar lazer e diversão de alto nível às pessoas. Parece pouco? Não creio. Por “alto nível” quero dizer que ler um bom livro, assistir a um bom filme, a uma peça de teatro, a uma performance de dança ou a um show de música pode ser uma experiência de vida fundamental, pois a pretensão das artes, além de divertir, é servir de espelho aos humanos, para que possam se entender melhor e melhor conviver nesse mundo cada dia mais complexo. 


Tanto quanto a ciência, a religião e a educação, ajudar um indivíduo a tornar-se melhor e mais arrazoado é também finalidade da arte, posto que através dela nos enxergamos com a devida clareza.

Evoé aos artistas! Não desistam! O sol há de brilhar mais uma vez.

 

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