Sempre tive o desejo de escrever crônicas. É um modo singular e breve de refletir sobre a vida. Ademais, a crônica comporta aspectos ditos banais da existência, mas que muitas vezes nos iluminam mais do que abordagens supostamente profundas.

Entretanto, em meio a Babel de hoje, onde informações de todo tipo se disseminam numa velocidade absurda, fazer apontamentos sobre a vida pode soar banal e desinteressante. Espero que esteja errado. Suponho que a gama de leitores tenha se diversificado; quem sabe alguma parcela ainda sinta falta de uma prosa ligeira. Ou talvez não. Nesse caso, a crônica está com os dias contados.

Emprego o adjetivo “ligeira”, mas não me refiro a certos tipos de banalidade que nos assaltam com frequência. Uso “ligeira” em sua inflexão clássica, que significa ágil, rápida, veloz. Nada como fazer uma reflexão com apenas 3.000 caracteres (com espaços). Pra se ter uma ideia, essa tem, até aqui, 926 caracteres. Logo, tenho mais 2.074 caracteres para concluir o texto. Agora são 2.001.

Depois do haicai, forma poética mais breve de que se tem notícias, e dos 140 (hoje 280) caracteres do Twitter, tudo é possível.

E, no fim, é bom mesmo que não tenhamos muito espaço. Espaço de sobra é sinônimo de prolixidade, o que, convenhamos, não é lá muito crônica, embora seja, em alguns casos, crônico.

Mas nada disso me preocupa. A verdade é que a crônica está mais up do que nunca. Quanto mais curto e direto um texto, maior a probabilidade de ser lido até o fim, mais ainda nesse caos de informações que se digladiam. Viva a brevidade!

E como agora tenho menos de 1.500 caracteres para concluir isso, devo, enfim, dizer a que vim. Tudo o que importa em tempos agitados e incertos, talvez mais que a brevidade, é usar a palavra certa. Não bobeie com qualquer palavra por aí, você pode se meter em encrenca grossa. E quer saber: acho justo esse negócio. Não dá mais pra ser condescendente com o tiozão do churrasco, que fala o que quer do jeito que quer inclusive a quem não quer. Esses tempos se foram. A nova ordem nos convoca a medir o que dizemos, como e a quem diremos. O nome disso é respeito.

Para encerrar, devo lembrar que disse tudo o que precisava com apenas 2.124 caracteres. Estão me devendo, portanto, 876, que ficam de crédito para a próxima crônica. Agora são 709. 694. 688. 684…

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