Mariposas na neblina
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terça-feira, 17 de novembro de 2020
Adriano Garib/ Especial para Folha2 
Nesse momento em que o futuro de muita gente foi suspenso e em que muitos, como eu, tentam adivinhar os próximos passos da humanidade, venho, com coragem e humildade, acrescentar um pouco mais de confusão ao debate.
Millôr Fernandes dizia que “livre pensar é só pensar”, e ele tinha razão, a meu ver. Mas pensar é - bem mais do que apenas se dispor a isso - um super trabalho. Ousaria dizer “comum” se isso não fosse injusto. Não é um trabalho comum, pois exige por demais de quem se dispõe a pensar. Requer criterioso garimpo de informações, paciência e, mais que tudo, senso ético no sentido de compreender que pensar inclui o outro e que, às avessas do que se prega por aí, nada tem a ver com alguém dobrado sobre o próprio umbigo tentando decifrar os próprios caprichos. Pensar pra valer, para mim, inclui sobretudo o outro, tanto quanto multi perspectivas de possibilidades.
E vamos a uma delas. Quais seriam nossas perspectivas em tempos tão incertos? A primeira, que parece inevitável, é encarar a mudança como certa. Mudar, entretanto, não é nada fácil. Notamos isso ao tentar mudar algum hábito excessivamente arraigado. Agora imagine o que seria mudar num sentido amplo e coletivo. Difícil? Talvez convenha se esforçar. Essa conversa de que “o mundo é assim mesmo, ninguém muda suas estruturas, o máximo que podemos fazer é mudar a nós mesmos” está com os dias contados.

Claro que mudar a si mesmo é um fundamento, sem isso nada é possível. É como no avião: coloque a máscara de oxigênio primeiro em si mesmo e só depois nas crianças e idosos. Suponho que você já andou se examinando nessa longa quarentena e que muita coisa mudou aí dentro. Saiba, então, que não é só aí dentro que muita coisa mudou, mas na própria noção de “mundo auto-suficiente, onde o sucesso material é tudo o que importa” ou de “meu futuro já garanti, você que se vire”. Essas noções estão sendo lentamente desconstruídas pelo cenário atual e tendem a não mais persistirem nos tempos que se anunciam.
De minha parte, pressinto que chegou a hora de começar a saber o que fazer, mesmo frente a um futuro mais obscuro que o normal. Disse Hamlet: “Estar preparado é tudo.” Para quê? Para aprender a viver num mundo mais equânime, justo e pacífico. “Ah, mas vai demorar!” Não arriscaria esse palpite num tempo em que mudanças acontecem de modo rápido e drástico e no momento em que a humanidade se vê frente a desafios decisivos, muitos deles inadiáveis. “Ah, mas ainda estamos muito perdidos!” Sim, estamos. Mas termos vivido até então num mundo brutal, desordenado e indiferente não indica que isso vá durar para sempre. Somos mariposas: estamos na neblina, mas procuramos a luz.
Da última vez que mencionei isso a um jovem amigo, ele redarguiu: “Mas o que posso fazer para aprender a viver nesse mundo aí?” Disse a ele: “Talvez ajudar a construí-lo seja o bastante. ‘Esse mundo aí’ é o seu mundo.” Mas não creio que se dedicar a concebê-lo seja uma tarefa agradável. Acho mesmo que o que nos aguarda são batalhas difíceis. Somos movidos a interesses diversos, às vezes inconciliáveis. Logo, ao menos para este cronista, o que irá determinar nosso êxito ou fracasso nessa jornada será o cultivo crescente de nossa capacidade de nos “humanizar” (refiro-me ao que se usa chamar, stricto sensu, de “civilidade”) e de nosso potencial solidário. Sem isso, aí sim estaremos perdidos.


