Você é uma fascista!
O dia em que uma professora universitária com 30 anos de dedicação foi atacada por um aluno militante
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de maio de 2019
O dia em que uma professora universitária com 30 anos de dedicação foi atacada por um aluno militante
Paulo Briguet 

Há mais de 30 anos a professora Ana dedica-se com paixão e disciplina a seu trabalho na universidade. Com aulas bem preparadas e orientações criteriosas, ajudou a educar milhares de pessoas. Embora tenha direito à aposentadoria, jamais passou por sua cabeça parar — pelo menos até a semana passada.
Ana vinha notando certa sombra de hostilidade em uma turma da graduação, que reúne alunos mais jovens e vulneráveis à doutrinação ideológica. Foi nessa turma que aconteceu uma situação constrangedora.
Era uma sexta-feira, dia de uma aula de debates sobre temas sociais controversos. Ana passou a palavra a um dos alunos, que é deficiente visual, e o rapaz fez uma brilhante argumentação oral sobre o tema enfocado. Tudo corria bem até que, meia hora depois, um estudante chegou atrasado à aula. Esse rapaz nem é aluno da turma; sua função consiste em acompanhar o deficiente visual nas atividades do curso.
A certa altura, esse estudante fez uma observação e não se sentiu contente com uma resposta da professora. Imediatamente alterou-se e começou a gritar:
— Você é uma fascista! Uma fascista! Você é de direita, eu sempre soube!
A agressividade do aluno — em especial a escolha da palavra “fascista” — escandalizou Ana. Logo ela, cujos avós sofreram perseguição das falanges fascistas na Europa, ser chamada por aquele nome! Foi uma ofensa abominável.
Ana saiu da sala e registrou uma queixa na chefia de departamento. Teve pouca — ou quase nenhuma — solidariedade por parte dos professores mais novos do curso. Os alunos da sala também não se manifestaram contra a postura do colega.
Há três anos, o marido de Ana descobriu um câncer em estado avançado. A pedido dele, Ana não deixou as suas atividades como professora. Depois que ele faleceu, no final de 2017, ela se dedicou com uma energia ainda maior à universidade. O trabalho sempre foi a sua bênção.
Mas o acontecimento de sexta-feira alterou a ordem das coisas. Há vários dias, ela tem dificuldades para conciliar o sono: a todo instante vem-lhe à mente a expressão irada do estudante e as suas palavras terríveis:
— Você é uma fascista! Uma fascista!
Pelo telefone, converso com Ana. Embora ainda esteja sofrendo com o episódio da sexta-feira fatídica, ela me conta com um entusiasmo sobre tudo que já realizou de bom na universidade. Foram muitas conquistas — uma vida inteira de estudos, pesquisas e ensinamentos.
— Eu sou tão empolgada com meu trabalho que, veja só, descobri três férias que não tirei...
Conto a Ana que recentemente também fui chamado de “fascista” por uma turba de universitários. Ela me pergunta:
— Até onde vamos chegar assim, Paulo?
Eu não sei, Ana. Eu não sei.


