Imagem ilustrativa da imagem Viagem sentimental pela utopia de Londrina
| Foto: Paulo Briguet

Há muitos anos procuro o sebo secreto, aquele lugar misterioso e encantador que às vezes aparece nos meus sonhos. Sempre imaginei que o sebo secreto fosse uma utopia, um lugar nenhum, mas Nina avisou-me que ele pode estar na Rua Paraíba, continuação da Higienópolis, essa avenida criada pelo pioneiro russo Eugênio Larionoff em 1935. Fui até o endereço indicado, e realmente encontrei um sebo simpaticíssimo; quase comprei o livro do Gramsci sobre os intelectuais (estava muito caro, vou deixar para depois do dia 5), mas levei uma antologia do Jorge de Lima com uma apresentação de Mira-Celi, musa inspiradora do poeta alagoano. No sebo da Paraíba, o dono é xará do meu filho e há um cachorrinho resgatado da rua, o Dinho, que passeia entre as prateleiras.

Também abriram outro sebo perto da Folha, parceiro do meu querido Sebo Capricho; o garoto-propaganda dessa nova loja é um enorme boneco de leitor, esse aí que está na foto. Como ele se chama? Que livro estará lendo? De minha parte, encontrei uma coletânea de contos do Dino Buzatti, autor do clássico “O Deserto dos Tártaros”; eu daria um braço para escrever bem com ele. O livro de Buzatti é de 1934 — o ano da fundação de Londrina.

Na galeria do Centro Comercial, perto do Bar do Lema, havia um mecanógrafo, que também era meu vizinho na Rua Humaitá. Certa vez passei a noite inteira datilografando o trabalho do professor Eduardo Judas Barros; a cada erro, tinha que parar tudo e passar Errorex no texto. De manhã, quando finalmente terminei o trabalho, vi o mecanógrafo saindo para o trabalho. Pensei: “A pior peça na minha máquina de escrever sou eu mesmo; não me corrijo nem com Errorex!”

No Calçadão, em frente à Praça da Bandeira, havia uma fileira de orelhões. Se você não tinha telefone em casa, e precisava falar com a família ou a namorada em outra cidade, tinha que usar aquelas malditas fichas de DDD, que só duravam 20 segundos cada uma. Ou seja, para falar cinco minutos, você tinha que usar quinze fichas; sempre que o tempo da ficha acabava, você ouvia um barulhinho ameaçador. Daí vem a expressão “Caiu a ficha”.

Meu pai comprou um telefone para a república, e naquela época, antes da privatização, telefone era um bem declarável no imposto de renda, tinha até escritura. A partir desse dia abandonamos as fichas e passamos a utilizar o serviço despertador da Sercomtel. Era um atendimento personalizado: você pedia para ser acordado às seis horas e a moça ligava pontualmente: “Bom dia, senhor Paulo. Estou chamando no horário programado”. Quando a voz da moça foi substituída por uma gravação eletrônica, fiquei muito triste.

Para curar a tristeza (e também matar a fome), o jeito era ir até o centro e pedir um bolinho de carne com Coca-Cola na Pastelaria Utopia. Até alguns anos atrás, a Utopia ficava em frente ao coreto. Depois o coreto foi substituído por uma fonte que vaza, mas o bolinho de carne continua ótimo e, eu me consolo lendo os versos de Jorge de Lima:

“Parai tudo que me impede de voltar ao sono iluminado

Que Deus me deu

antes de me criar”.

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