Hoje a Avenida Paraná tem mais uma convidada especial da comunidade acadêmica: trata-se da Claudia A. M. Russo, titular do Instituto de Biologia da UFRJ e também estudiosa da área educacional. Em texto exclusivo para a coluna, a professora fala sobre o principal desafio da educação brasileira: a alfabetização de qualidade.

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. | Foto: Shutterstock

“Mesmo com o aumento do investimento em educação, os alunos brasileiros perderam posições nos testes do PISA nas últimas décadas. Como Cingapura é o primeiro lugar nos testes, vamos olhar com mais detalhes o país. No Brasil, dois terços da carga horária na formação docente dizem respeito a teorias de ensino e apenas um terço foca nas metodologias de ensino. Por outro lado, em Cingapura, apenas 10% da formação docente é dedicada para a teoria, mas 90% discute métodos. Nesse contexto, destaco a base da pirâmide educacional, a alfabetização.

Existem duas classes de métodos de alfabetização. A primeira e mais antiga é a classe de métodos fônicos, pelo qual brasileiros alfabetizados com mais de 30 anos aprenderam a ler. O método tem como base a decodificação (associação) das letras com seus fonemas. Por outro lado, a classe dos métodos da palavra global faz uma associação entre a escrita da palavra e sua leitura. Esse método tem algumas vantagens, pois a criança consegue fazer a associação rápida de um grande número de palavras. Com a velocidade de leitura, aumentam também o interesse e a fluência oral da criança. Ora, se o método global ganha em velocidade, em interesse e em fluência, como existem profissionais que ainda insistem no tradicional método fônico?

A resposta é simples. A vantagem do método global só se concretiza nos textos com palavras que o aluno já memorizou. Como o aluno não aprendeu a decodificar, ele não consegue lidar com uma nova palavra. Neste método em uso no Brasil, o processo de decodificação é ensinado tardiamente ou simplesmente não é ensinado; e a criança deve aprender a decodificação sozinha. Um exemplo é que muitos adolescentes falam “vestido” quando está escrito “vestíbulo”. Se isso acontecer, mesmo raramente, o leitor não vai conseguir capturar a essência do texto. Imagine ler um texto com 10% das palavras em chinês.

Há algumas décadas, a educação brasileira está sendo direcionada pela segunda classe de métodos. Isso significa que as nossas crianças não aprendem a ler quando deveriam. Vários programas já surgiram nas últimas décadas para acelerar o processo de leitura. Quem não conhece alguém cujo filho teve dificuldade de aprender a ler? Esse problema pode explicar boa parte dos milhões de analfabetos funcionais que chegam ao Ensino Médio. De fato, mesmo em países nos quais a associação letra-som é muito menos profunda do que o português, métodos com base no fônico são obrigatórios pela qualidade de leitores aptos formados.

Pela primeira vez em nossa História, temos uma Secretaria de Alfabetização no MEC, o que já mostra uma nova posição de destaque para essa área nuclear da educação. Além disso, quem está a frente da secretaria é Carlos Nadalim, o primeiro defensor do método fônico que aparece no time oficial da educação brasileira. Ele tem um excelente blog sobre o método fônico e sobre como os pais podem ajudar seus filhos que não aprendem a ler na escola. Nadalim surge como um oásis neste deserto infinito do processo educativo no Brasil.”

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