Imagem ilustrativa da imagem Um homem chamado Alegria
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Nos últimos dias, um anjo passou por Londrina e foi levando de volta alguns colegas seus que andavam por aqui. Primeiro, foi a minha sétima leitora, Ruth Jentzsch. Depois, a querida Iza Kley. Ontem foi a vez de José Maria Makiolke, o nosso Zezão.

Calou-se a voz de Zezão? Jamais, porque a voz de uma cidade não se cala. Hoje, amigo leitor, assim que você deu bom-dia a quem mais ama, era a voz de Zezão que falava. Sempre que percebermos as crianças brincando no parquinho, sempre que sonharmos com aqueles que já se foram, sempre que tentarmos imaginar a cantoria dos anjos, a voz de Zezão será ouvida.

Sou todo ouvidos para a voz de Zezão. Ligo o rádio, é ele o locutor. Abro um livro, é ele o narrador. Leio o jornal, é ele o repórter. Ouço uma música, é ele o cantor. Vejo um filme, é ele o ator. Não morreu um homem, mas um grande elenco. E um grande elenco nunca morre; estará eternamente nos créditos.

Zezão deveria se chamar William, mas nasceu com o cordão umbilical enrolado no pescoço, e as irmãs da Santa Casa sugeriram que ele fosse batizado José Maria. Com esse nome protegido e protetor, o choro do recém-nascido se transformou na nossa primeira voz; no nosso porta-voz; na voz da Alegria.

Alegria, Alegria, Alegria — dizia o Zezão. Escrevo a palavra com inicial maiúscula, porque Alegria é uma pessoa, e essa pessoa é o Zezão. Ninguém será capaz de associar a voz de Zezão à tristeza ou ao sofrimento. Sim, ele os conhecia de perto: a doença degenerativa, a diabetes, a neuropatia, as dores, as internações... Mas Zezão era Zezão, era literalmente maior que a dor. Foi o único caso na história em que a tal doença passou a ser chamada Bem de Parkinson. Zezão, você venceu: mudou o nome da dor!

Usemos agora a voz do Zezão para os melhores momentos de nossas vidas. Quando nascer uma criança; quando vier aquela boa notícia; quando o céu de Londrina estiver cintilante do azul pintado por Deus; quando os poentes de Londrina estiverem mais vivos que uma tela de Van Gogh ou Chagall; quando um idoso receber uma visita no asilo; quando um paciente encontrar a cura no Hospital do Câncer; quando um cachorrinho ferido encontrar um lar; quando dois velhos amigos se reencontrarem depois de muitos anos — sempre que algo de bom acontecer, pensemos que é a voz do Zezão anunciando a história para nós.

Encontrei-o pela última vez no ônibus. Ele me convidou a falar no seu programa, disse que gostava de ler a coluna. Desceu no ponto do Lago Igapó, em frente à Paiquerê. Caminhava lentamente, em direção ao trabalho.

Agora vai, meu amigo. Solta a tua voz na Estação de Deus!

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