Imagem ilustrativa da imagem Surdo, cego e mudo
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“As melhores e mais belas coisas do mundo não podem ser vistas ou tocadas. Elas devem ser sentidas com o coração.”

(Helen Keller, escritora americana)



1.
De vez em quando eu fico meio surdo. Há uns dez dias estou quase sem audição no ouvido direito. Como a minha visão também não anda lá essas coisas, pode-se dizer que estou parcialmente cego e surdo. Pedi ao doutor para me receitar uma injeção de destampar o ouvido, porque nos próximos dias devo fazer uma entrevista importante, e um repórter surdo equivale a um salva-vidas que não sabe nadar.

2. Cego e surdo — porém não mudo, como desejariam alguns. Aproveito meus olhos míopes e meu ouvido mouco para reparar nas coisas. Por exemplo, notei que o Cisco anda meio triste. Os motivos são sentimentais: ele se enamorou de uma cachorrinha que não quer saber de nada com ele. Belinha mora na rua de baixo. “Mora” é maneira de dizer; na verdade, ela se julga dona da rua. Sempre que o Cisco passa por ali, ela avança. Não no sentido romântico, que certamente agradaria ao Cisco, mas no sentido bélico. Por isso, meu vira-lata anda triste. É um amor impossível; eles são de castas diferentes. Ele é um shudra (serviçal), ela é uma shatryia (guerreira). Já passei por isso, Cisco. Eu te entendo.

3. Na manhã de segunda-feira, passeando com o Cisco (longe da rua da Belinha), chego à pracinha do Parque Guanabara, cujo nome é Guilherme Massaro (um pioneiro de Londrina, sobre quem ainda falarei). Ali existe uma pequena quadra de esportes; mesmo com meus olhos míopes, vejo meu vizinho dando aula de bola ao cesto para um grupo de pessoas, na maioria idosos. A cena me comove. Ainda há esperança para nós.

4. Descobri um sebo novo na cidade. É o Sol Nascente, que fica ali na Gomes Carneiro, a rua que começa no Moringão e termina na Higienópolis. Conversei com a Sonia, simpática dona do estabelecimento, e acabei levando livros de dois xarás. Um do Paulo Coelho: “Diário de um Mago”. Outro de Paulo Emílio Salles Gomes: “Três Mulheres de Três PPPs”. O do Paulo Emílio eu já li; é simplesmente genial (ainda falarei mais dessa obra aqui na coluna). O do Coelho, confesso que ainda não tive coragem de encarar. Mas vai que o cara é um gênio e eu não sabia?

5. Um amigo me pergunta: — É possível perdoar um comunista, um globalista, um abortista? Sem nenhuma dúvida, sim. Basta que ele peça perdão — e se torne anticomunista, um defensor da pátria, um pró-vida. Não há perdão sem arrependimento; é como pensar na luz da Lua sem a luz do Sol. Perdoa-se um comunista ou um petista sinceramente arrependido, não o partido comunista ou PT. Porque a lei do perdão foi feita para pessoas, não para coletividades. Coletividades são cegas e surdas; mas não mudas.

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