Imagem ilustrativa da imagem Sua mãe salvou minha vida
| Foto: Acervo familiar

No último sábado, quando viajamos juntos para São Paulo, rumo à grande manifestação popular na Avenida Paulista, meu amigo Bernardo Pires Küster contou-me uma história real sobre sua mãe, a saudosa designer e professora Dorotéia Baduy Pires.

O caso aconteceu logo depois da morte de Dorotéia, em 18 de outubro de 2014. Bernardo, devastado pela dor, estava no velório da mãe, quando sentiu um toque em seu ombro. Era uma moça desconhecida, que lhe disse:

“Desculpe, Bernardo. Meu nome é Renata. Perdoe-me por fazer isto agora, mas preciso lhe dizer uma coisa: — Sua mãe salvou a minha vida.”

Renata havia sido aluna de Dorotéia na universidade. Durante uma aula prática, Dorotéia deu à turma uma tarefa aparentemente simples: desenhar uma cadeira com nanquim.

Quinze minutos depois, Renata entregou o desenho à professora.

Por alguns instantes, Dorotéia pousou o olhar sobre o desenho da aluna.

“Não está bom. Você pode muito mais. Faça de novo.”

Passados mais alguns minutos, a moça voltou com um novo desenho.

“Renata, você precisa observar os detalhes. Hoje você não sai desta aula sem me entregar um desenho de verdade.”

Renata obedeceu. Quando voltou, Dorotéia apontou mais algumas falhas na imagem e ordenou novamente:

“Refaça.”

Os outros alunos foram entregando seus trabalhos, a sala foi ficando vazia, e Renata já sentia o nanquim como uma espécie de extensão do próprio corpo. Aquela tinta era o seu sangue.

“Refaça.”

Os dedos de Renata doíam; os detalhes da cadeira pareciam ter vida própria; o objeto talvez possuísse uma alma. Platão diria talvez que a professora exigia — e a aluna buscava — a cadeiridade daquela cadeira.

“Refaça.”

“Refaça.”

“Refaça.”

Depois de muitas idas e vindas, o olhar de Dorotéia demorou-se alguns instantes sobre o trabalho, e ela disse:

“Renata, eu sei que você pode fazer melhor. Mas este desenho talvez valha como um rascunho. Pode ir.”

Eram 23 horas quando Renata deixou a sala. Naquela noite, os dedos de Renata estavam feridos. Porém, anos depois, ela se tornou uma conceituada profissional de design.

“Bernardo, tudo que eu tenho hoje foi consequência daquela aula.”

Até hoje Renata guarda os vinte e três desenhos da cadeira.

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Quando vi Bernardo Pires Küster aclamado pela multidão na Paulista, tive certeza de que Dorotéia sentiria orgulho de seu filho.

Ele está ajudando a redesenhar o Brasil, Dorotéia. E repetirá isso quantas vezes forem necessárias.

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