São Paulo do meu coração
Em sonho, faço um passeio com meu pai e o poeta Guilherme de Almeida pela capital paulista
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de agosto de 2019
Em sonho, faço um passeio com meu pai e o poeta Guilherme de Almeida pela capital paulista
Paulo Briguet 

Pai,
Olha aí de novo a sua foto de chapéu.
Nos últimos dias a saudade bateu forte. Vejo-me, de manhã, esperando o seu telefonema das oito horas; sinto uma súbita vontade de discutir com você o filme que acabei de ver; vou ao sebo e, súbito, estou procurando um livro para lhe dar de presente.
Por falar em minhas visitas ao sebo, na semana passada achei um livro de Guilherme de Almeida. “Pela Cidade” reúne crônicas que o poeta paulista publicou entre 14 de julho de 1927 e 8 de novembro de 1928, no extinto Diário Nacional. Em textos despretensiosos, assinados com o pseudônimo “Urbano”, Guilherme consegue fazer o aparentemente impossível: transforma uma seção de queixas e reclamações dos leitores em um documento vivo da cidade que ele tanto amava.
Lembro-me do dia em que você me levou para visitar a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Eu teria uns nove anos, a idade do Pedro agora. Ali você me mostrou a placa em homenagem ao acadêmico Guilherme de Almeida, o “Príncipe dos Poetas”. Fiquei imaginando o que deveria fazer um homem para ganhar esse título. Anos mais tarde, ao ler alguns poemas e traduções do autor, vi que ele fazia jus ao tributo dos colegas de faculdade. E a mesma impressão se viu confirmada com a leitura de “Pela Cidade”.
Ah, pai, nossas andanças pela cidade de São Paulo! O Largo São Francisco, a Catedral da Sé, a Praça da República, a Avenida São João, o Edifício Martinelli, o Museu do Ipiranga, o Jardim Zoológico, o Terraço Itália, o Pátio do Colégio. O pequeno cinema, na Brigadeiro Luís Antônio, em que vimos “Bom Dia”, a obra-prima do cineasta japonês Yasujiro Ozu. O protagonista do filme é um menino de cinco anos que se cansa de dar “bom-dia” aos adultos. Eu daria tudo para dar bom-dia a você outra vez, pai.
No livro de Guilherme, há um anexo escrito pelo autor em 1967, dois anos antes de morrer, a pedido da Companhia Telefônica Brasileira, que pretendia divulgá-lo nas páginas das listas telefônicas distribuídas aos assinantes. Trata-se do “Meu Roteiro Sentimental da Cidade de São Paulo”. O passeio começa na Estação da Luz, onde São Paulo começou para o menino vindo de Campinas; ali ele encontra um estranho senhor que falava sozinho... Depois Guilherme percorre o Bairro da Luz, o Triângulo formado pelas ruas Direita-São Bento-Quinze de Novembro, os antigos portões do Brás, a Faculdade de Direito e outras paragens, terminando o passeio na Avenida Paulista.
Há 30 anos eu vim para Londrina, pai, e me tornei um cidadão pé-vermelho desde criancinha. Mas, em meu coração, há espaço para essa velha metrópole que você e o Guilherme de Almeida amavam tanto. Espero que vocês, colegas do Largo São Francisco, tenham boas conversas aí na São Paulo do meu coração.
Bom-dia!


