Ricardo Vélez: 100 dias de solidão
O ex-ministro da Educação acabou sendo sugado pela mesma máquina que soube analisar e denunciar em seus livros
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de abril de 2019
O ex-ministro da Educação acabou sendo sugado pela mesma máquina que soube analisar e denunciar em seus livros
Paulo Briguet 
“Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura.”
(Mário Faustino, poeta brasileiro)

1. Em outubro de 2018, poucos dias antes do segundo turno das eleições, meu amigo Silvio Grimaldo disse-me que o professor Ricardo Vélez Rodríguez talvez fosse um bom nome para o Ministério da Educação. Gostei da ideia; no mesmo dia, Silvio mencionou o nome de Vélez para nosso grande amigo e professor, o filósofo Olavo de Carvalho. Imediatamente, Olavo entusiasmou-se e fez um post no Facebook indicando o nome de Vélez para o MEC. Não quero aqui me gabar como o barquinho que acredita estar puxando o transatlântico (para usar a clássica metáfora de Tolstói), mas o fato é que, sem a indicação de Olavo, Vélez jamais teria sido ministro.
2. Infelizmente, não deu certo. Embora seja um homem honrado, um intelectual respeitável e um grande conhecedor do pensamento luso-brasileiro, Vélez não é um guerreiro político hábil — e só alguém com grande habilidade política poderia iniciar algum tipo no ninho de serpentes chamado MEC, onde há mais de 30 anos reinam as perversidades do marxismo e do globalismo. Talvez o nome certo para a missão seja Abraham Weintraub.
3. Estive a um passo de aceitar o cargo de assessor de comunicação do MEC — o que teria sido um grande erro. Graças a Deus, fui demovido por minha família. Mas cheguei a participar, em Brasília, de uma reunião de apresentação dos novos secretários do Ministério. Na minha fala, disse que o grande desafio da gestão Vélez seria fazer a Lava Jato da Educação, não apenas para detectar esquemas financeiros ilícitos, como também para tirar o Brasil das últimas colocações nos testes internacionais de ensino e livrar-nos do pior problema do país: o analfabetismo funcional. Naquela ocasião, usei a história da revolta de Lúcifer para ilustrar o desafio que Vélez e sua equipe tinham pela frente. Ressaltei que Lúcifer era um anjo de alta patente, um querubim — posto equivalente a coronel. São Miguel, no entanto, era um simples arcanjo — posto equivalente a cabo. Lamentavelmente, para nossa tristeza, a gestão de Vélez acabou sendo dominada pelos “coronéis” leais ao positivismo e ao marxismo.
4. Face ao drama que Ricardo Vélez viveu nestes 100 dias — execrado pela imprensa, isolado, provavelmente chantageado —, concluo que o professor não merecia passar por tantas agruras. Ele foi sugado por uma máquina monstruosa e gigantesca, a mesma máquina que ele soube analisar e denunciar em seus livros: o Estado patrimonial brasileiro. Que ele agora volte a ser o intelectual, o professor, o pai de família, o amigo que ele foi para nós. Desculpe por alguma coisa, Ricardo.


