Quem mata uma criança?
Diante do crime mais hediondo, o melhor comentário sempre será a súplica: — Senhor, tende piedade de nós
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quarta-feira, 01 de maio de 2019
Diante do crime mais hediondo, o melhor comentário sempre será a súplica: — Senhor, tende piedade de nós
Paulo Briguet 

“Who kills a baby?” (Quem mata um bebê?), pergunta um agente policial em uma cena estarrecedora do seriado britânico “Black Mirror”. A mesma indagação nós fazemos diante das notícias de assassinatos de crianças que, com perturbadora frequência, aparecem na mídia e escandalizam a todos.
Mais chocante, a um nível insuportável, torna-se a notícia quando o assassino é o pai ou a mãe da vítima. Temos aí um crime tão hediondo que nem mesmo nome tem. Sim, existe no dicionário a palavra “filicídio”, mas por alguma razão ela raramente é utilizada, como se fosse proibida a simples nomeação da coisa. Muito mais comum é a palavra “infanticídio”; termo que se refere de maneira geral ao assassinato de crianças, algo em si abominável; no entanto, “infanticídio” não contempla toda a crueldade contida no ato de um pai matar um filho pequeno e indefeso.
Quem mata uma criança? Quem mata uma criança que é a sua própria filha? Quem mata uma criança que é a sua própria filha e a enterra no quintal? Quem mata uma criança que é a sua própria filha, a enterra no quintal e ainda tenta mostrar-se preocupado com o desaparecimento da vítima? São perguntas muito pesadas; respondê-las de maneira completa seria mergulhar nas piores trevas da alma, sondar regiões do desespero humano que estendem a imaginação ao reino do inominável. Diante do crime mais hediondo, o melhor comentário sempre será a súplica: — Senhor, tende piedade de nós.
O caso mais conhecido de filicídio na literatura clássica é o da tragédia “Medeia”, de Eurípedes, encenada pela primeira vez em 431 a.C., em Atenas. Sedenta por vingança contra seu esposo Jasão, que a trocou por uma mulher mais jovem, Medeia não apenas mata a rival como decide apunhalar os próprios filhos pequenos, para que Jasão sofra ainda mais. Diz Medeia ao coro das mulheres de Corinto: “Não volto atrás em minhas decisões, amigas; sem perder tempo matarei minhas crianças e fugirei daqui”.
A passagem que se segue é dilacerante:
CORIFEU
Ouviste os gritos dos filhos? Não ouvistes?
1º FILHO
Ah! Que fazer? Como fugir de minha mãe?
2º FILHO
Não sei, irmão querido! Estamos sendo mortos!
CORIFEU
Ah! Infeliz! Tu és então de pedra ou ferro
para matar assim, com tuas próprias mãos,
os dois filhos saídos de tuas entranhas?
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Não era por acaso que Aristóteles via em Eurípedes “o mais trágico dos trágicos”. Até hoje, milhares de anos depois, o assassinato de filhos por pais e de pais por filhos continua desafiando a nossa compreensão. Nunca iremos dar uma resposta completa à pergunta do policial: “Who kills a baby?” E quem, além de Deus, seria capaz de perdoar esse ato?


