Que fim levaram os lanterninhas?
Conheça os personagens que frequentam o estranho Clube das Profissões Extintas
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segunda-feira, 01 de abril de 2019
Conheça os personagens que frequentam o estranho Clube das Profissões Extintas
Paulo Briguet 
Fui ao cinema com o Pedro e, enquanto acostumávamos nossas vistas ao escuro da sala, contei a ele que antigamente existiam os lanterninhas. Não sei quando e como tal profissão desapareceu, mas fiquei curioso e resolvi pesquisar na internet. Eis que me vi levado a uma outra sala escura, habitada por estranhos seres, tendo perdido a verdadeira via.
Escutei uma sineta; abriu-se uma porta e um homem disse:
— Desce.

Olhei para o meu lado e vi outro homem. Na verdade, era um rapaz envelhecido; vestia o mesmo surrado uniforme dos tempos em que trabalhava no Cine Augustus. Como a sala estava mergulhada na penumbra — apenas uma fraca lâmpada pendia do teto —, mal podia vislumbrar seu rosto. De qualquer modo, nunca o reconheceria, não fosse o pequeno instrumento cilíndrico que ele trazia nas mãos, e que lançava um cone de luz sobre meus pés. Quando o lanterninha abriu a boca para dizer alguma coisa, a porta automática se abriu e fechou de novo; apenas três segundos, suficientes para o mesmo homem de antes informar:
- Sobe
Então observei três indivíduos no canto direito da sala, conversando em voz baixa. O primeiro tinha diante de si um cabideiro de onde pendiam vários chapéus, de todos os tipos... O chapeleiro olhou durante alguns instantes, fez uma avaliação que julguei lombrosiana e declarou: “Desculpe, mas para o tamanho da sua cabeça eu não tenho nada”. O segundo homem trazia duas bicas e ofereceu-me um copo de água cristalina: era o aguadeiro. O terceiro homem, sentado diante de uma escrivaninha, trocava a fita de uma máquina de escrever, mas não parecia satisfeito com o resultado do trabalho. Lamentou: “Essa máquina não tem a letra A”. Soou de novo a sineta.
— Desce.
Fui até o canto esquerdo da sala, onde um rapaz aguardava pacientemente a impressão de um formulário contínuo, enquanto outro inseria uma folha de papel em um aparelho que lembrava um telefone antigo, só que maior. Reconheci-os prontamente: eram o menino do telex e o menino do fax. Ao lado deles, um terceiro jovem escrevia letras esparsas sobre uma folha de seda. Notei que ele era muito parecido comigo, só que mais magro. Lembrei-me do meu primeiro trabalho remunerado, no longínquo ano de 1990: serviço de pestapeiro para a Mostra Regional de Teatro. De repente, a sineta.
— Sobe.
Em outro canto da sala, uma mulher chorava convulsivamente. Quando me aproximei, parou de chorar e disse com a voz profissional: “Ninguém mais contrata carpideiras”. Ao seu lado, um senhor macilento apertava o gatilho de um remarcador de preços; em sua lapela, havia um bottom com a frase “Eu sou fiscal do Sarney”. Apartado deles, um sujeito com cara de poucos amigos balançava a cabeça em desconsolo. O remarcador me disse: “Esse aí é o ventanista. Vive reclamando, porque aqui no Clube nós não temos janelas”.
Ouvi a sineta. Entrei no elevador; o ascensorista mediu-me com os olhos e perguntou:
— Sobe ou desce?
— O senhor é que sabe.
O rádio do elevador tocava Caetano.
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