Quando os heróis não são os bandidos
O filme “Estrada Sem Lei” traz uma mensagem importante sobre o combate à criminalidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de abril de 2019
O filme “Estrada Sem Lei” traz uma mensagem importante sobre o combate à criminalidade
Paulo Briguet 

Às vezes, assistir a um grande filme pode proporcionar uma satisfação intelectual comparável à de ler um bom livro. Para mim, esse foi o caso de “Estrada Sem Lei” (The Highway Men), cujo lançamento aconteceu há poucos dias na Netflix. O filme de John Lee Hancock faz a inversão do clássico “Bonnie e Clyde — Uma Rajada de Balas”, dirigido por Arthur Penn em 1967. Eu não poderia deixar de registrar minhas impressões sobre “Estrada Sem Lei” com vocês, meus sete leitores.
Em “Bonnie e Clyde”, os heróis eram os bandidos — o casal de criminosos que ganhou fama durante a Grande Depressão nos EUA. Em “Estrada Sem Lei”, os heróis são os policiais — os veteranos parceiros Frank Hamer e Maney Gault, interpretados magistralmente por Kevin Costner e Woody Harrelson.
Os jovens Bonnie e Clyde tornaram-se verdadeiros ídolos populares nos Estados Unidos no final dos anos 30. Em parte, a glamourização do casal de bandidos foi feita pela mídia sensacionalista. Nesse sentido, “Estrada Sem Lei” é, para usar uma expressão cara aos acadêmicos marxistas, um filme “revisionista”: agora, Bonnie Parker e Clyde Barrow são mostrados como assassinos cruéis e indiferentes ao sofrimento humano.
Assisti a “Estrada Sem Lei” por indicação de um amigo, o promotor público Diego Pessi. Logo nas primeiras cenas, notei que o filme abordaria um dos temas centrais do livro “Bandidolatria e Democídio”, publicado por Pessi em parceria com Leonardo Giardin dos Santos em 2017. A bandidolatria é o nome que se dá à tendência, infelizmente comum nos meios culturais e jurídicos brasileiros, de transformar bandidos em justiceiros sociais, vítimas da opressão e, por fim, heróis revolucionários. Na verdade, Bonnie e Clyde eram tão heroicos quanto os assaltantes de banco Josef “Koba” Stálin e Carlos Marighella.
A meu pedido, Diego Pessi fez um comentário sobre o filme, que compartilho com vocês sete:
“O filme mostra a essência de algo que foi muito bem definido por Dave Grossman: há homens perversos nesse mundo, capazes de coisas inomináveis (simbolicamente representados pela figura do lobo) e há os policiais (simbolicamente representados pelo cão pastor), igualmente dotados de capacidade para a violência, só que voltada à proteção dos mais fracos. Ao contrário da vítima (simbolizada pela ovelha), o cão pastor não apenas não teme a existência do lobo, como vive pelo dia em que irá encontrá-lo.
Essa tensão, presente da primeira à última cena do filme, é cruamente exposta no diálogo antológico entre o pai do criminoso Clyde e o policial representado por Kevin Costner. Nenhum deles possui ilusões pueris ou faz relativizações sobre o mal. Ambos conhecem o que há de sombrio na alma humana e sabem que o que está por acontecer é tão brutal quanto inevitável. O contraste dessa sabedoria com a estupidez da massa de potenciais vítimas que acaba por idolatrar o casal de assassinos e desprezar o sacrifício dos policiais é magistralmente captado ao final do filme, fazendo dele — na minha modesta opinião — um clássico instantâneo.”
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