Imagem ilustrativa da imagem <span style="color: rgb(0, 0, 0);">Por que precisamos de heróis</span>
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1. Estive em São Paulo para participar do círculo literário do Cursinho Saquarema/Projeto Ampliar, uma iniciativa educacional voltada a jovens de baixa renda. Para minha alegria, encontrei uma turma animada e respeitosa, disposta a conversar sobre literatura clássica numa manhã de sábado! O tema da minha aula foi o mito do herói Hércules e seus doze trabalhos, apresentado com base na obra do helenista Menelaos Stephanides (1923-2007). A moçada do Saquarema não apenas leu o livro, como também participou ativamente da aula, com perguntas e observações inteligentes. Para mim, a manhã no cursinho foi um daqueles momentos que renovam as esperanças.

2. Os doze trabalhos de Hércules constituem uma jornada em busca do perdão. Para vencer monstros e capturar feras como a Hidra de Lerna, o Leão da Nemeia, o Touro de Creta, o Javali do Erimanto e até mesmo Cérbero, o cão dos infernos, nosso herói precisa autoeducar-se através da luta contra os seus próprios defeitos, que são basicamente o desejo incontido de poder (dominação), o desejo incontido de prazer (luxúria) e a violência desmesurada (ira). Assim como os deuses gregos, Hércules é uma projeção das virtudes e vícios humanos.

3. Hércules se submete às dificílimas tarefas após ter cometido o pior de todos os crimes: matar os filhos. A terrível deusa Hera, inimiga de Hércules, enlouqueceu o herói e fez com que ele enxergasse, em vez dos três filhos, três dragões assassinos. Hércules mata os próprios filhos pensando que eles são monstros. Mas — isto é importante —, o herói não tenta justificar os próprios erros: a exemplo de Édipo, que furou os próprios olhos ao descobrir que havia matado o pai e se casado com a mãe, Hércules submete-se à justiça divina para aplacar a culpa e purgar o horrível crime. Daí, os doze trabalhos, em que o herói vai gradativamente assumindo o controle sobre os seus próprios atos. Nascido para ser rei, Hércules tem a humildade de abandonar qualquer pretensão de ser um governante dos homens para tornar-se governante de si mesmo. Em vez de ordenar o mundo, ele terá que ordenar a própria alma.

4. No preâmbulo do livro “Hércules”, o escritor Menelaos Stephanides transmite aos jovens uma mensagem fundamental sobre a necessidade que temos de heróis em qualquer tempo. Fiz questão de lê-la aos alunos do Saquarema: “Homens fortes, intrépidos e belos de alma, mente e corpo; mesmo que não tenham sido, da maneira como mesmo que não tenham sido assim, da maneira como queria a fantasia humana naqueles tempos antigos e míticos, de todo modo eles existiram. Sempre houve e haverá heróis, pois enquanto houver covardia, haverá também bravura; enquanto houver maldade, haverá também virtude; enquanto houver mesquinhez, haverá também grandiosidade. O mal gera o bem, assim como o inverno traz a primavera. Os homens simples acreditam nos heróis e com isso adquirem força. E essa é a força que impele para frente as gerações humanas”.

5. Não somos que explicamos os heróis, eles é que nos explicam.

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