Por que não faço uma tatuagem
Imaginem seu eu tivesse tatuado a figura do Che Guevara no meu braço esquerdo!
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de julho de 2019
Imaginem seu eu tivesse tatuado a figura do Che Guevara no meu braço esquerdo!
Paulo Briguet 

Escreve um leitor:
“Paulo, eu não tenho nenhuma tatuagem, às vezes me sinto um ET no trabalho, na rua, na piscina. Mas, se eu resolvesse me tatuar, tatuaria o quê? O distintivo do Corinthians? Um pavão? Um dragão? A sigla do PCdoB ou do PSL? Alguma frase em letras garrafais e góticas?”
Ora, amigo, não se preocupe. Estamos exatamente no mesmo caso! Seguem as minhas sete razões para não ser tatuado:
1. Não vou fazer uma tatuagem porque me assusta a promessa de permanência sobre a pele; porque não ouso desafiar o transitório; porque, como o poeta já explicou, “Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho/ Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio/ Nem ama duas vezes a mesma mulher”.
2. Não vou fazer uma tatuagem pelo mesmo motivo que leva um cardeal a não disputar um rally; ou um cantor de funk a não escrever um ensaio sobre T. S. Eliot; ou um eleitor do Bolsonaro a não participar de uma reunião do PSOL; ou um jornalista a não pedir água mineral na Toca do Bode; ou uma alta executiva da indústria de cosméticos a não comer um ovo cozido num boteco da zona norte; ou um cronista a não fazer uma tatuagem.
3. Não vou fazer uma tatuagem porque, quando eu trabalhava no extinto jornal “O Popular”, a redação ficava ao lado da sala de um tatuador. Numa tarde, eu fechava a edição quando chegou uma garota. Ela perguntou: “Aqui é o tattoo?” Respondi: “Não, o tatu é o vizinho”.
4. Não vou fazer uma tatuagem porque não sei como ficaria. Muitos amigos e amigas fizeram. Há tatuagens que lembram o Sol, a saúde, a energia, a paixão e a vida. Há tatuagens que lembram os elementos e os enigmas. Há tatuagens com ideogramas de gratidão e símbolos de lealdade. Há tatuagens que abraçam a bela garota, envolventes como a passagem do tempo. Mas também conheço tatuagens que lembram os campos de extermínio, o sangue derramado e o inimigo.
5. Não vou fazer uma tatuagem de paz nem uma tatuagem de guerra. Pelo simples motivo de que sem guerra não há a paz.
6. Não vou fazer uma tatuagem porque já a faço todos os dias, quando escrevo. Todo texto é uma tatuagem sobre o papel. Há vinte anos, eu era ateu; hoje acredito em Deus. Há vinte anos, eu era trotskista; hoje sou conservador. Imagine se eu tivesse tatuado a figura de Che Guevara no meu braço esquerdo! Seria um ridículo impagável e indelével.
7. E, finalmente, não vou fazer tatuagem porque a única tatuagem possível não mora na pele, nem no papel. A única tatuagem possível é a que nos aproxima da eternidade. O nosso vínculo com o absoluto. É o que realmente fica de nós, em nós. E o nome dessa tatuagem, meus amigos, é amor.


