Quando visitei o Santuário de Aparecida, minha primeira surpresa foi descobrir que a imagem original da Padroeira é muito pequena, quase tão pequena quanto a imagem que pertenceu à Vó Maria. A estátua encontrada pelos três pescadores em 1717, nas águas do rio Paraíba do Sul, não é muito maior que a figura da santinha em minha mesa de trabalho. O centro da Basílica, assim como na oração da Ave-Maria, é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Imagem ilustrativa da imagem Os milagres de Maria
| Foto: iStock

Diz a tradição familiar que Vó Maria adquiriu essa imagem quando visitou Aparecida para cumprir uma promessa, há 70 anos. Pouco tempo antes, ela estivera internada por três meses em um hospital de Bauru, com uma gravíssima peritonite. Maria tinha apenas 30 anos e duas filhas pequenas.

Certo dia, Maria estava ardendo em febre, sozinha no quarto do hospital. Os médicos e as pessoas que a visitavam — acompanhantes não eram permitidos — não conseguiam disfarçar o espanto e a perplexidade diante da enferma. Depois de algum tempo de internação, Maria teve a certeza de que era um caso perdido e vivia os seus últimos momentos neste mundo.

Enquanto esperava o padre para lhe dar o sacramento da extrema-unção, Maria rezava. Ou melhor, tentava rezar. De seus lábios não saía som algum. E, mesmo em pensamento, era-lhe difícil passar das duas primeiras palavras da oração: “Ave Maria” — a saudação do anjo.

Imersa na dor, percebeu que havia alguém a seu lado; pensou que pudesse ser o padre. Lentamente, abriu os olhos, e viu uma enfermeira negra. No primeiro instante a moça ficou em silêncio, apenas sorriu. Depois, com muita delicadeza, a enfermeira segurou as mãos da paciente e lhe disse, com uma voz suave e melodiosa: “Maria, não tenha medo. Ainda não é a hora. Sua família precisa de você”. Saiu sem dizer mais nada.

Quando o médico entrou no quarto de Maria, não acreditou nos próprios olhos. A paciente estava em pé, diante da janela, olhando para a manhã ensolarada. Não tinha mais febre, nem dor. Os exames confirmaram que a peritonite havia desaparecido misteriosamente, sem nenhum vestígio. Antes de receber alta, Maria perguntou ao médico quem era aquela enfermeira. Ninguém a conhecia no hospital. “Talvez tenha sido uma visitante”, disse a chefe de enfermagem.

Maria visitou o Santuário de Aparecida para agradecer por sua vida, juntamente com Mãe Mulata (minha bisavó), Aracy (minha futura mãe) e Lia (minha futura tia). De lá, Maria trouxe a imagem que hoje está em minha mesa de trabalho.

Muitos anos depois, quando visitei Aparecida, surpreendi-me com a Sala dos Milagres, nos subterrâneos da Basílica. O teto e as paredes desta sala estão forrados com imagens e cartas, testemunhos das graças concedidas pela Padroeira do Brasil. E um desses milagres, talvez o menor deles, foi a minha libertação do ateísmo, que Vó Maria certamente pediu fervorosamente à enfermeira negra.

Obrigado, Marias!

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