(29 de abril de 2019. Um professor dá aula para seus alunos numa universidade pública. Subitamente, um grupo de grevistas invade a sala. O líder toma a palavra.)

GREVISTA: Companheiros, nós exigimos que esta aula seja encerrada agora! Hoje é dia de paralisação das atividades educativas. Estamos lutando pelo seu salário, professor.

PROFESSOR: Tá certo, tá certo. Aí a gente faz greve e sai de mão abanando, como das outras vezes.

GREVISTA: Ainda não estamos em greve, companheiro professor. Por enquanto é só um dia de paralisação, para lembrar o 29 de abril, exigir a nossa data-base e lutar contra a reforma da previdência.

PROFESSOR: Mas é sempre assim... Vocês sempre arrumam uma desculpa pra fazer greve.

GREVISTA: Isso não importa. Importa é que a assembleia deliberou, e a assembleia é soberana!

PROFESSOR: Mas eu sou contra essa paralisação.

GREVISTA: Se você é contra, vá à assembleia e vote contra. Agora não adianta reclamar. A assembleia é a decisão oficial da nossa categoria. Ela representa legalmente os professores. Você sabe disso.

PROFESSOR: Mas eu tenho direito de dar aula. Há três ou quatro anos não tenho reajuste, mas entendo que o caminho não é a greve...

GREVISTA: Então você vá à assembleia e diga isso!

PROFESSOR: Veja, o sr. interrompeu minha aula...

GREVISTA: Nada disso. Eu não interrompi coisa nenhuma, o sr. é que está interrompendo a greve! O SR. É UM FURA-GREVE!

ALUNO: Na verdade, interromper a aula dessa maneira é uma falta de respeito — com o professor e conosco. Nós queremos aula.

GREVISTA: Mais de cem companheiros deliberaram na assembleia. Esta é a legitimidade e a legalidade do nosso movimento. Furar a greve é um ato de desobediência civil!

ALUNO: É inconstitucional ter aula agora?

GREVISTA: Vocês estão furando a greve. Isso é pior do que inconstitucional. Vocês estão desrespeitando a solidariedade de classe.

ALUNO: Mas nós estamos sendo prejudicados há quatro anos por essas greves.

PROFESSOR: Podem me chamar de fura-greve, não importa. Importa é que nós estamos desacreditados diante da sociedade. A população está contra nós. Eu já fiz parte de sindicato, mas cansei. Nas últimas greves, foram ditas muitas barbaridades.

ALUNO: Uma minoria de professores não pode impor sua vontade sobre toda a universidade. Nós estamos estudando e vocês vieram interromper a nossa aula!

GREVISTA: Se vocês estão estudando numa universidade hoje, é graças aos sindicatos. A greve traz resultados, sim senhor!

PROFESSOR: Eu não disse que a greve não traz resultado. Eu disse que ela traz resultado negativo. O que eu mais ouço é que esse é um movimento de vagabundos. Tento mostrar a realidade, mas a greve só está fazendo mal para todos nós.

GREVISTA: Se você não concorda com a nossa forma de agir, vá ao sindicato, vá à assembleia!

PROFESSOR: Eu não vou à assembleia porque os radicais mandam lá. Eu não vou estragar a minha saúde com radicalismo. Minha forma de agir é outra. Estou aqui dando aula como forma de protesto! Nós ficamos muito distantes da sociedade, por muitos anos...

GREVISTA: Ah, já entendi tudo. Vocês estão protestando contra o movimento! Contra a deliberação soberana da assembleia! Vocês são FASCISTAS!

(Um aluno liga o celular para filmar a cena, um grevista protesta. Na tela inicial do celular, há a foto de um tanque atropelando um manifestante na Venezuela. A cena termina em balbúrdia.)

Fale com o colunista: [email protected]

mockup