Imagem ilustrativa da imagem <br>Os cinco sentidos da Paixão
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Nesta Sexta-Feira da Paixão — o único dia do ano em que a missa católica não é celebrada —, compartilho com meus sete leitores uma preciosidade da literatura cristã em todos os tempos. Trata-se da “Legenda Áurea”, escrita por Jacopo de Varazze no século XIII. Uma obra quase tão antiga quanto a Catedral de Notre-Dame, e igualmente viva para os cristãos.

“A dor atingiu cada um dos membros e dos sentidos de Jesus.

Em primeiro lugar, sofreu nos olhos, porque chorou, como está dito na Epístola aos Hebreus. Bernardo explica: ‘Ele subiu e gritou com força para que ninguém pudesse alegar não ouvi-lo de longe, e a seus gritos juntou lágrimas, a fim de provocar a compaixão dos homens’. Ele derramou lágrimas mais duas vezes, uma quando da ressurreição de Lázaro e outra sobre Jerusalém. As primeiras foram lágrimas de amor, as segundas foram lágrimas de compaixão e as terceiras, da Paixão, foram lágrimas de dor.

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Em segundo lugar, Cristo sofreu nos ouvidos, quando o cobriram de ofensas e blasfêmias devido a quatro qualidades. Possuía excelentíssima nobreza, pois quanto à natureza divina era filho do rei eterno, quanto à natureza humana era de estirpe real, enquanto homem foi rei dos reis e senhor dos senhores. Possuía a verdade inefável porque o Filho e a Palavra ou o Verbo do Pai. Possuía poder insuperável, pois todas as coisas foram feitas por Ele e nada foi feito sem Ele. Possuía, enfim, uma inigualável bondade, pois ‘ninguém, exceto Deus, é unicamente bom’.

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Em terceiro lugar, sofreu no olfato, devido ao grande fedor do Calvário, lugar onde se encontravam os corpos fétidos dos mortos.

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Em quarto lugar, sofreu no paladar, pois quando exclamou: ‘Tenho sede’, deram-lhe vinagre misturado com mirra e fel, para que com o vinagre morresse mais depressa, e os guardas encarregados de vigiá-lo fossem liberados.

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Em quinto lugar, sofreu com o tato, em todas as partes do seu corpo. Sobre tais dores, Bernardo diz:

‘A cabeça, objeto de veneração dos espíritos angélicos, foi crivada da espinhos; o rosto, o mais belo dentre os filhos dos homens, foi emporcalhado pelas cusparadas; os olhos, mais brilhantes que o sol, foram apagados pela morte, os ouvidos, acostumados aos cantos angélicos, escutaram os insultos dos pecadores; a boca, que instruía os anjos, foi amargada com fel e vinagre; os pés, que transformaram o escabelo em objeto de adoração, foram fixados na cruz com pregos; as mãos, que formaram os Céus, foram estendidas na cruz e trespassadas por cravos. É preciso dizer mais? Restou-lhe a língua, para orar em favor dos pecadores e para confiar sua mãe a seu discípulo’.”

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