Na última sexta, fui a Brasília para falar com o presidente Bolsonaro. Tivemos uma conversa de 45 minutos no Palácio do Planalto, e abordamos temas muito importantes. Mas, para mim, o ponto alto da viagem aconteceu depois, quando decidi, na companhia de meu querido amigo Bernardo Küster, visitar pela primeira vez a Catedral de Brasília.

Imagem ilustrativa da imagem Os anjos da Catedral de Brasília
| Foto: Paulo Briguet

Nunca fui um admirador da arquitetura de Oscar Niemeyer. Na Catedral de Brasília, que é considerada uma de suas obras mais expressivas, o que realmente me chamou a atenção não foi o templo em si, mas alguns personagens que encontrei por lá.

Logo na entrada, deparamo-nos com cinco mendigos. Dois deles — um homem e uma mulher — eram cegos e muito loquazes. A mulher compunha um estranho, mas convincente salmo de petição. O homem também falava continuamente, e ao mesmo tempo usava a sua bacia de pedinte como um instrumento de percussão.

Ao entrar na igreja em si, os nossos olhos são imediatamente atraídos pelos seres que pairam no ar, como se estivessem voando sobre as cabeças dos fiéis: são os anjos esculpidos por Alfredo Ceschiatti e Dante Croce. As estátuas voadoras representam os três arcanjos bíblicos: Miguel, Gabriel e Rafael.

Miguel é aquele que protege; Gabriel é aquele que anuncia; Rafael é aquele que cura. Miguel eternamente vence Lúcifer, jogando-o no abismo; Gabriel eternamente anuncia o Salvador à Virgem; Rafael eternamente cura nossas feridas e doenças. Ao observá-los pairando sobre nós, pensei em quanto precisamos deles — todos os dias, todas as horas, todos os minutos.

Desço até a cripta, onde uma mulher reza ajoelhada diante do Santíssimo. Eu me ajoelho também, e rezo uma dezen do meu terço. Quando abro os olhos, a mulher está de pé ao meu lado, e diz:

— Preciso falar com você.

Ela se senta e conta sua história. Seu nome é Raimunda; veio de Fortaleza, com os filhos, em busca de uma vida melhor na capital do Brasil. Está precisando desesperadamente de uma casa. Quando me viu de terno e gravata, imaginou que eu fosse um político, e que pudesse ajudá-la.

— Mas eu não sou político, D. Raimunda. Sou apenas um jornalista.

— Ah, eu me confundi. Desculpe interromper a sua reza.

— Imagine, foi um prazer falar com a sra. Boa sorte, fique com Deus.

Sigo em direção à saída; passo pelo túnel onde estão os cinco mendigos. O cego continua batendo sua bacia; é o único som que se ouve em todos os pontos da catedral. Deixo uma nota na bacia. Mesmo cego, ele percebe que alguém lhe deu dinheiro.

Lá fora, encontro mais quatro personagens: os evangelistas, também esculpidos por Alfredo Ceschiatti. De um lado, estão os autores sinópticos: Mateus, Marcos e Lucas. Do outro, João, aquele que escreveu: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus”.

Ao sair, dou-me conta de meu pai nos deixou há exatamente 11 anos. Como eu gostaria de tê-lo aqui para contar tudo isso.

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