Desde criança eu adoro mapas. Explorador da estante de livros em nosso pequeno apartamento em São Paulo, praticamente decorei a coleção de geografia de minha mãe. Sobre a escrivaninha que eu dividia com minha irmã, havia um globo terrestre em inglês, made in Korea. Em um final de tarde, meu pai chegou do trabalho com um presente especial: um atlas giratório, que indicava os diversos dados sobre os países do mundo: população, área territorial, gentílico, moeda, idioma, religião principal, sistema de governo. Era o meu Google da época.

Os mapas traziam mistérios. Por que a Alemanha era dividida em duas? Como é que uma ilha gigantesca como a Groenlândia podia ser governada pela pequenina Dinamarca? A quem pertencia o Saara Ocidental? Por que o Vaticano é tão pequeno e a União Soviética é tão grande? Como sobrevivem os habitantes da isolada Nauru?

Em todas as bancas paulistanas vendia-se o Guia de S. Paulo, reeditado ano após ano, para dar conta do crescimento da cidade. Era indispensável tê-lo em mãos para andar na metrópole. Assim como eram indispensáveis as listas telefônicas, a cada ano mais grossas e pesadas. No Guia, eu buscava as ruas mais distantes — o fim de São Paulo. Nas listas, eu buscava os nomes mais estranhos, entre os quais um cidadão chamado Ei Oe.

.
. | Foto: Dom Lancelotti/ Divulgação

Um dia, comecei a desenhar meus próprios mapas. Criava civilizações imaginárias, com suas próprias línguas, culturas, cidades, moedas, acidentes geográficos. Às vezes, esses países entravam em guerra uns com os outros, e a divisão política se alterava. Cada país inventado tinha também seus campeonatos de futebol, para os quais eu fazia complicadas tabelas de turno e returno. Cheguei até mesmo a criar um pacote turístico para uma ilha paradisíaca chamada Mapuá, república independente situada nas águas caribenhas. Eu era bem maluquinho.

Na minha última ida a São Paulo, chamou-me a atenção a presença de um simpático senhor que vendia mapas em um semáforo da Rua Estados Unidos. Paramos o carro para conversar com ele. O nordestino José Carlos, mais conhecido como Zé Mapeiro, sustenta a família há 36 anos vendendo mapas de todo o mundo para todo mundo.

Zé Mapeiro ama o que faz. Fala com orgulho e conhecimento de causa sobre os produtos que vende. Tem todos os tipos de mapas: do mundo, dos continentes, dos países, dos estados, das cidades.

“Ah, você é do Paraná? Tenho mapas atualizados de Londrina e de Curitiba...”

“Vai viajar para a Europa? É só escolher: Paris, Londres, Amsterdã, Berlim, Madri, Lisboa, Roma...”

“Se precisar de um mapa de São Paulo, está falando com a pessoa certa.”

Acabei levando um mapa-múndi para o Pedro. Nós o penduramos na parede ao lado da cama, e agora todas as noites fazemos uma pequena viagem internacional antes de dormir. Pedro já sabe o nome de todas as capitais da América e, claro, também cria seus países imaginários.

Um dia, o Pedro vai comprar um mapa para o seu filho e a viagem continuará — no espaço e no tempo.

Fale com o colunista: [email protected]

mockup