Imagem ilustrativa da imagem O Sul e o Norte de um escritor
| Foto: Sandro Branco/Divulgação

Uma das minhas alegrias na vida é descobrir aquele livro que estava me esperando há muito tempo. Foi esse o caso de “Um Bourbon para Faulkner”, do escritor londrinense Marco Fabiani. Meu amigo e médico há muitos anos, Fabiani criou uma bela história ficcional em torno da visita do célebre romancista americano William Faulkner (1897-1962) ao Brasil. Faulkner passou sete dias em São Paulo, para participar de um congresso de escritores, em um período extremamente conturbado da vida nacional: agosto de 1954, o mês em que Getúlio Vargas cometeu suicídio. Mas a política é apenas o pano de fundo de uma história profundamente humana, com o diálogo entre um barman chamado João Clark e o romancista ganhador do Nobel de Literatura em 1949. A narrativa de Fabiani apresenta personagens convincentes e cativantes, que envolvem o leitor da primeira à última página. Leia a seguir uma pequena entrevista com o autor de “Um Bourbon para Faulkner”:

Avenida Paraná: Bons livros nascem de boas ideias. Como nasceu a ideia do livro sobre Faulkner?

Marco Fabiani: Foi meio que por acaso. Sempre gostei muito do Faulkner e um dia vi na internet que ele havia estado no Brasil em 1954. Coisa que pouca gente sabe. Aí fui atrás e pensei que poderia dar uma boa história. E de fato era uma boa história!

Nota-se que você fez um bom trabalho de pesquisa para o livro. Como conseguiu misturas as vozes do Faulkner romancista, do Faulkner entrevistado e do Fabiani leitor?

A primeira tarefa era transformar o Faulkner em um personagem. Além do escritor. Não foi muito difícil porque há um bom material biográfico dele. Me baseei muito na biografia clássica escrita por Joseph Blotner. E, o que é interessante, ele é um personagem que fascina. Instável, brilhante ao mesmo tempo rude e terno. E, claro, foi o Faulkner visto por mim, brasileiro, pé-vermelho, mais afeito às coisas da roça que da grande cidade.

Há um parentesco entre o Sul de Faulkner e o Norte de Fabiani?

Sempre achei que temos muito em comum com os EUA, apesar das enormes diferenças dos dois países. Mas temos uma matriz americana; isto é, com experiências históricas parecidas. A escravidão negra, a relação violenta com povos indígenas, países construídos com “gente de fora”(imigrantes). Em outras palavras lugar ao mesmo tempo de derrotados e esperançosos. Ao mesmo tempo de gente que carrega derrotas e reconstruções. Isso não é o Norte do Paraná? Somos feitos por “desnorteados”.

Como se deu a transformação do livro em peça teatral?

Tenho proximidade com algumas pessoas ligadas ao teatro. O Donizeti Buganza uma vez comentou sobre eu escrever uma peça. Depois do livro pronto, achei que haveria espaço para isso. Bom, aí naturalmente foi saindo um texto dramatúrgico. Foi a primeira vez que vi um texto meu falado por outras pessoas. Fiquei muito feliz com o resultado.

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