Imagem ilustrativa da imagem O sorriso de um lutador
| Foto: Paulo Briguet

Todos os dias eu vejo o Seu Lourival e ouço o seu inconfundível bordão:

— Bom dia, bom dia, bom dia! Olha o bijuuuu...

O vendedor de bijus é um personagem querido de nossa cidade. De terça a domingo, ele pode ser encontrado em um semáforo da Avenida Higienópolis, onde vende bijus (“Três por dez!”) e oferece sorrisos de graça para todos os passantes.

Ontem eu conversei com ele.

Nem todo mundo sabe, mas, por trás do sorriso de Seu Lorival, existe uma história de fé, sofrimento e superação. Alagoano de Maceió, ele migrou para o Sul com apenas 17 anos, já casado com Sebastiana, e trabalhou colhendo café em uma fazenda de Bela Vista do Paraíso, até que veio a geada de 1975 e destruiu tudo. Da noite para o dia, Lourival se viu obrigado a mudar para outra Bela Vista, a do Piquiri, onde, apesar do nome, a vida era dura. Durante três anos, nosso amigo labutou na roça, plantando arroz e feijão, e morava em um barraco de lona. Quando percebia desânimo na mulher, Lourival sorria:

— Deus vai nos ajudar e a vida vai melhorar, Bastiana.

O próximo destino de Lourival foi Londrina. Sua primeira residência na cidade foi um barraco na antiga favela da Caixa Econômica, hoje Conjunto da Paz. Trabalhava de servente de pedreiro, e nas horas que sobravam catava papel pelas ruas. Certo dia, aproximou-se com seu carrinho de umas caixas de papelão. Quando as estava recolhendo, uma mulher abriu a janela de uma casa grande e gritou: “Devolve isso aí!”

Aquele grito calou fundo em Lourival. Foi um dos poucos momentos da vida em que ele não sorriu. Chegou em casa e disse a Sebastiana:

— Nunca mais vou catar papel.

Mesmo passando fome e dificuldades imensas em várias ocasiões, Lourival jamais cogitou roubar, agredir ou enganar ou alguém. A fé e o trabalho sempre o conduziram pelo caminho certo. Zeloso de seu filho, Deus colocou alguns anjos na vida de Lourival. Um deles foi a Irmã Margarida, uma senhora japonesa que, apesar do nome, não era religiosa, mas o ajudou muito na construção de sua casa e no sustento dos seis filhos (duas mulheres e quatro homens). Outro anjo foi o Dr. Wilson, que com quatro cirurgias corrigiu um problema de no pé direito de Lourival, deformado pela paralisia infantil.

Certo dia, no semáforo, Lourival ofereceu biju a uma jovem senhora que parecia triste, deprimida. O vendedor de bijus sorriu para ela, apontou as duas crianças no banco traseiro do carro e disse:

— Você não pode cair em depressão, moça. Depois quem é que vai cuidar dessas crianças?

Passados alguns dias, a moça voltou e disse:

— Obrigada, Seu Lourival. Você salvou minha vida.

— Não fui eu não, moça. Foi Jesus. Com Ele no coração, tudo fica melhor.

Obrigado, Seu Lourival, pela nossa conversa de ontem. Ah, eu comprei dois bijus.

mockup