Nunca me canso de admirar a riqueza de nosso idioma. Deveríamos agradecer a Deus todos os dias pela língua de Camões e Pessoa, Machado e Euclides, Bandeira e Corção, Cecília e Adélia, Olavo e Mário, Braga e Nelson. No entanto, a última flor do Lácio vem sendo criminosamente despetalada nas últimas décadas. A educação brasileira está entre as piores do mundo, como consequência direta do veneno ideológico que se tem ministrado às crianças e aos jovens. Nesse holocausto da inteligência, a primeira vítima é a língua portuguesa.

Imagem ilustrativa da imagem O regresso da desordem
| Foto: Paulo Briguet

Bertolt Brecht tem um famoso poema sobre o analfabeto político; no Brasil, a educação paulofreiriana criou o analfabeto politizado. Trata-se daquele jovem que não tem o menor domínio sobre o idioma, mas ainda assim deseja utilizá-lo como arma política.

Passava eu outro dia pelas redondezas do Lago Igapó, quando a Rosângela me chamou a atenção para uma pichação na esquina. Certo de que estava tendo um gesto revolucionário, o pichador (certamente um jovem, a não ser que tenha sido um desses estudantes eternos das universidades públicas) assim escreveu:

DESORDEM E REGRESSO

Salta aos olhos que o sujeito (ou eu deveria grafar sujeitx?) tinha a intenção de parodiar o lema de nossa bandeira, “Ordem e Progresso”. No entanto, o redator de muros falhou miseravelmente. Ao procurar o contrário de “ordem”, optou por “desordem”, o que já é indicativo de sua esqualidez vernacular, vez que a palavra “caos” expressaria com muito mais eficácia o sentido antagônico desejado.

O nosso poeta do spray, contudo, superou-se ao escolher a palavra “regresso” como oposto de “progresso”. Evidentemente, foi uma escolha errada. Regresso significa o ato ou consequência de voltar, de retornar. Se o pichador estivesse procurando um antônimo para progresso, a língua portuguesa teria à sua disposição inúmeros termos que se encaixariam no caso: retrocesso, recuo, atraso, crise, decadência, declínio, degradação, queda, quebra, empobrecimento, ruína, degeneração, deterioramento, ocaso, decréscimo, piora, diminuição, descida, abismo. Tudo aquilo que o PT fez ao Brasil.

Mas, como até um relógio parado acerta duas vezes por dia, o analfabeto politizado acabou revelando, sem querer, os seus verdadeiros sentimentos em relação ao País. Como ele odeia tudo aquilo que dá certo e gera prosperidade, a ideia de progresso lhe é repugnante. Ele não está preocupado com o futuro do Brasil, com o bem-estar das pessoas ou mesmo com a proteção das minorias. Nada disso importa diante do maior objetivo de seus companheiros ideológicos.

Eis o pichador definido em toda a sua amargura: o que ele quer é uma desordem tal que permita o regresso da esquerda ao poder. Alguns chamam isso de revolução, outros de utopia; eu chamo de crime.

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