O que Jesus escreveu no chão?
Passagens da mulher adúltera e do filho pródigo mostram o perdão como lei fundamental do universo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de abril de 2019
Passagens da mulher adúltera e do filho pródigo mostram o perdão como lei fundamental do universo
Paulo Briguet 

Nos dois últimos domingos, escutamos na missa o episódio da mulher adúltera e a parábola do filho pródigo. São duas passagens que demonstram a infinita misericórdia de Deus; duas histórias de perdão; dois exemplos de que a bondade divina está muito acima do que poderia supor a imaginação humana.
O crítico canadense Northrop Frye dizia que todas as histórias da literatura ocidental têm origem na Bíblia, e ele estava coberto de razão. A mulher salva do apedrejamento e o filho arrependido tornaram-se, ao longo dos últimos 2 mil anos, fonte de inspiração para incontáveis obras da alta cultura. Temos aí uma fonte inesgotável: quanto mais a buscamos, mais ela nos oferece.
Falemos em primeiro lugar da mulher adúltera, cuja história se encontra no Evangelho de São João. Todos conhecem o episódio: uma mulher, flagrada em adultério, é levada pelas autoridades do Templo à presença de Jesus, para ser apedrejada. Quando trazem a mulher, Jesus escreve com o dedo alguma coisa no chão. Em todo o Evangelho, é a única passagem em que Jesus aparece escrevendo. Ele, definido por São João como o próprio Verbo, não deixou textos escritos (assim como Sócrates, o pai da filosofia ocidental).
Mas o que é que Jesus estaria escrevendo naquela hora? Quando os mestres da lei e os fariseus perguntam a Jesus o que deveria ser feito com aquela mulher, Ele não levanta a cabeça; continua a escrever. Diz apenas: “Quem dentre vós não tiver pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Pouco a pouco, todos se retiram, a começar pelos mais velhos.
Penso que Jesus, naquele momento, escrevia no chão os pecados dos que iriam apedrejar a mulher. Por extensão, estava escrevendo ali os pecados de toda a humanidade, inclusive os meus e os seus. Quando Jesus diz à mulher: “Eu também não te condeno”, está demonstrando que só o próprio Deus é capaz de apagar os nossos atos abomináveis. Antes que a mulher saia, porém, Jesus lhe dá uma orientação preciosa, infelizmente esquecida nos tempos que vivemos: “Vai e não peques mais”.
Na parábola do filho pródigo, o filho decide voltar para casa quando chega ao fundo do poço e está disputando comida com os porcos. Na esperança de obter o perdão do pai, ele pede para ser tratado como um simples empregado, não mais como herdeiro. E, no entanto, o pai não só o recebe de braços abertos, como dá uma festa pela volta do filho. Isso demonstra que Deus jamais se limita a atender nossos pedidos: ele sempre, sem exceção, nos dá MUITO MAIS do que aquilo que pedimos.
Há quem diga que todos os personagens dos sonhos refletem a imagem do nosso próprio eu. Fenômeno semelhante ocorre com o Evangelho: todos os personagens da história sagrada, por menores que sejam, revelam aspectos da nossa própria essência. Cada um de nós é simultaneamente aquela mulher salva do apedrejamento e aquele filho arrependido, vivendo em universo regido pela lei fundamental do perdão.
Resta-nos, portanto, voltar para casa e não pecar mais.


