Naquele tempo, quando as criancinhas de Londrina ficavam doentes, os pais já sabiam aonde ir. Na Avenida São Paulo, perto do Colégio Mãe de Deus, morava o pediatra Afonso Haikal. Dia e noite, o portão da casa ficava aberto, apenas encostado. A esposa, D. Guilhermina, e as filhas Leila e Liliane já estavam acostumadas. Era comum, no meio da madrugada, ouvir vozes aflitas que chamavam:

Imagem ilustrativa da imagem O pai de uma cidade inteira
| Foto: Acervo familiar

— Doutor Afonso! Doutor Afonso!

Eram pais e mães desesperados com os filhos doentes, muitas vezes ardendo em febre. Dr. Afonso os recebia sempre, não importava a hora. Nos fundos da casa do pediatra pioneiro de Londrina, havia um pequeno consultório, onde ele atendia às crianças. Jamais cobrou consulta de pessoas pobres — e quase todos eram pobres naquele tempo.

Mineiro de Ubá, Afonso chegou em Londrina no dia 3 de março de 1941, quando a cidade tinha apenas 12 mil habitantes. No ano anterior, formara-se em Medicina, com especialização em Pediatria, pela Faculdade Nacional do Rio. Seu primeiro consultório ficava na Rua Sergipe, em que ele compartilhava o espaço com outros dois jovens pioneiros: o médico Abílio Soares e o advogado José Hosken de Novaes, futuro prefeito.

Naquele tempo, os médicos de Londrina eram conhecidos como “anjos de branco”. A roupa alva dos doutores, que às vezes vinham a cavalo, contrastava com o vermelho sanguíneo da terra. Vizinhas de Dr. Afonso, as Irmãs de Maria, do Colégio Mãe de Deus, tinham pelo médico um carinho e um respeito incomensuráveis. Gostavam de lembrar especialmente o dia em que ele, juntamente com a equipe da Santa Casa, salvou um bebê prematuro de 900 gramas. Não havia incubadora: foi preciso forrar as roupas do recém-nascido com algodão in natura, enquanto as Irmãs do hospital colocavam garrafas de água quente no berço.

Além de salvar vidas e aliviar dores, Dr. Afonso colaborou muito no desenvolvimento da cidade. Personalidades que visitavam Londrina — como os médicos Euryclides Zerbini e Ivo Pitanguy — faziam questão de passar por sua casa, onde eram recebidos com deliciosos jantares preparados por D. Guilhermina. Fundador e presidente da Associação Médica de Londrina, Dr. Afonso participou da fundação do Lions, do Grêmio, do Country, do Iate e até do Aeroclube (onde tirou brevê). Estava entre os cidadãos beneméritos que, nos anos 60, criaram a primeira Faculdade de Medicina de Londrina, uma das instituições que se uniriam para formar a UEL.

O Dia dos Pais é uma data perfeita para lembrar Afonso Haikal. Pai duas vezes, avô cinco vezes e bisavô dez vezes, ele foi, sob certo aspecto, também um pai para as milhares de crianças a quem atendeu em sua longa vida. Juntas, essas gerações de londrinenses formariam uma cidade, talvez maior do que aquela pequena Londrina que o jovem médico encontrou em 1941. Londrina, a filha de Londres, também é filha de homens como Dr. Afonso.

Eis que em 2015, pouco antes de completar 100 anos de idade, nas vésperas de Natal, o velho pediatra ouviu de novo o chamado que tantas vezes o acordara no meio da noite:

— Doutor Afonso! Doutor Afonso!

Mas desta vez não eram pais de uma criança doente. Era a Mãe de Deus, que vinha buscá-lo para a eternidade.

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