O pai de uma cidade inteira
Londrina, a filha de Londres, também é filha de homens como Afonso Haikal (1916-2015), pediatra pioneiro da cidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de agosto de 2019
Londrina, a filha de Londres, também é filha de homens como Afonso Haikal (1916-2015), pediatra pioneiro da cidade
Paulo Briguet 
Naquele tempo, quando as criancinhas de Londrina ficavam doentes, os pais já sabiam aonde ir. Na Avenida São Paulo, perto do Colégio Mãe de Deus, morava o pediatra Afonso Haikal. Dia e noite, o portão da casa ficava aberto, apenas encostado. A esposa, D. Guilhermina, e as filhas Leila e Liliane já estavam acostumadas. Era comum, no meio da madrugada, ouvir vozes aflitas que chamavam:

— Doutor Afonso! Doutor Afonso!
Eram pais e mães desesperados com os filhos doentes, muitas vezes ardendo em febre. Dr. Afonso os recebia sempre, não importava a hora. Nos fundos da casa do pediatra pioneiro de Londrina, havia um pequeno consultório, onde ele atendia às crianças. Jamais cobrou consulta de pessoas pobres — e quase todos eram pobres naquele tempo.
Mineiro de Ubá, Afonso chegou em Londrina no dia 3 de março de 1941, quando a cidade tinha apenas 12 mil habitantes. No ano anterior, formara-se em Medicina, com especialização em Pediatria, pela Faculdade Nacional do Rio. Seu primeiro consultório ficava na Rua Sergipe, em que ele compartilhava o espaço com outros dois jovens pioneiros: o médico Abílio Soares e o advogado José Hosken de Novaes, futuro prefeito.
Naquele tempo, os médicos de Londrina eram conhecidos como “anjos de branco”. A roupa alva dos doutores, que às vezes vinham a cavalo, contrastava com o vermelho sanguíneo da terra. Vizinhas de Dr. Afonso, as Irmãs de Maria, do Colégio Mãe de Deus, tinham pelo médico um carinho e um respeito incomensuráveis. Gostavam de lembrar especialmente o dia em que ele, juntamente com a equipe da Santa Casa, salvou um bebê prematuro de 900 gramas. Não havia incubadora: foi preciso forrar as roupas do recém-nascido com algodão in natura, enquanto as Irmãs do hospital colocavam garrafas de água quente no berço.
Além de salvar vidas e aliviar dores, Dr. Afonso colaborou muito no desenvolvimento da cidade. Personalidades que visitavam Londrina — como os médicos Euryclides Zerbini e Ivo Pitanguy — faziam questão de passar por sua casa, onde eram recebidos com deliciosos jantares preparados por D. Guilhermina. Fundador e presidente da Associação Médica de Londrina, Dr. Afonso participou da fundação do Lions, do Grêmio, do Country, do Iate e até do Aeroclube (onde tirou brevê). Estava entre os cidadãos beneméritos que, nos anos 60, criaram a primeira Faculdade de Medicina de Londrina, uma das instituições que se uniriam para formar a UEL.
O Dia dos Pais é uma data perfeita para lembrar Afonso Haikal. Pai duas vezes, avô cinco vezes e bisavô dez vezes, ele foi, sob certo aspecto, também um pai para as milhares de crianças a quem atendeu em sua longa vida. Juntas, essas gerações de londrinenses formariam uma cidade, talvez maior do que aquela pequena Londrina que o jovem médico encontrou em 1941. Londrina, a filha de Londres, também é filha de homens como Dr. Afonso.
Eis que em 2015, pouco antes de completar 100 anos de idade, nas vésperas de Natal, o velho pediatra ouviu de novo o chamado que tantas vezes o acordara no meio da noite:
— Doutor Afonso! Doutor Afonso!
Mas desta vez não eram pais de uma criança doente. Era a Mãe de Deus, que vinha buscá-lo para a eternidade.
Fale com o colunista: [email protected]


