O Nelson Rodrigues do Facebook
Uma entrevista com Alexandre Archer, autor do excelente livro de crônicas “A vida como ela está”, com histórias sobre a loucura cotidiana do Brasil
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de dezembro de 2019
Uma entrevista com Alexandre Archer, autor do excelente livro de crônicas “A vida como ela está”, com histórias sobre a loucura cotidiana do Brasil
Paulo Briguet 
Imagine, por um breve instante, que Nelson Rodrigues e Stanislaw Ponte Preta voltassem à vida e começassem a escrever nas redes sociais. Imaginou? Pois é, esse cronista dos sonhos existe e lançou o seu primeiro livro, “A vida como ela está”, com 43 histórias sobre o cotidiano real e virtual do hospício chamado Brasil. As crônicas do carioca Alexandre Archer, 45 anos, têm uma qualidade rara: fazem o leitor rir e chorar ao mesmo tempo. Leia agora uma breve entrevista que Alexandre, entre um post e outro, concedeu à Avenida Paraná:

Avenida Paraná: Sempre que um escritor entrevista o outro, pergunta sobre o seu processo de criação. Na verdade, ele está querendo saber se o outro cara é tão louco quanto ele. Como é o seu processo de criação?
Alexandre Archer: Ah, sim! Não restam dúvidas de que é um processo consideravelmente doido. Quando começo meus textos, realmente não tenho o mínimo compromisso com finais pré-determinados. Sempre existe a ideia inicial sem um destino absoluto, que, aos poucos, vai surgindo descaradamente e — não raras vezes — até me surpreendendo. Tentando ser poético, eu diria que “escrever é dirigir despreocupado por uma estrada sem sinalização aparente nem limites de velocidade”. Lógico que você pode “enguiçar” e ficar parado — com cara de tacho — no meio do caminho, clamando aos céus por um resgate divino, um bendito relâmpago sináptico, uma mini-epifania salvadora. De toda forma, até essa parada forçada pode ser deliciosa. Basta saber aproveitar.
Por que o seu vizinho maconheiro não entrou no livro?
O vizinho maconheiro merece livro à parte, só dele; um romance histórico-esfumaçado, uma espécie de “Odisseia” carioca dos últimos trinta e poucos anos. Se essa obra sair, não tenho dúvidas de que alcançará lugar de destaque na Festa Literária de Paraty, em uma fogueira exclusiva, providencialmente acesa — com lupas — bem na entrada da cidade.
Você é conhecido por responder a celebridades das nossas classes falantes no Twitter. Já pensou em fazer uma coletânea dessas respostas cortantes? Quem são as suas vítimas preferenciais?
Essa interação sacana com as belezuras outrora inatacáveis do mainstream midiático é extremamente civilizadora, penso eu; mas nunca passou pela minha cabeça a ideia de uma coletânea do escracho, não. Muitas respostas são datadas, e, nesse ritmo doido da internet, perdem a graça em duas horinhas — e quinze minutos. Quanto aos alvos, prefiro os sacerdotes famosos das novas religiões profanas, o pessoal do "How dare you", os Gregorios e os Reinaldos, os santarrões do youtube e por aí vai. O que não falta é prego. Venham martelos, venham!
Bernardo, o tatuador. O filho próximo. O professor de sociologia. O corno de Uberaba. Joãozinho ateu. Quando penso nessas personagens, a palavra que me vem à mente é: solidão. Como é que você se tornou o cronista da solidão pós-moderna?
Olhando para os lados e ouvindo as pessoas, tanto suas confissões mal disfarçadas quanto seus barulhos insinceros. O que tento fazer é uma leitura honesta desses tratados humanos — ainda não — escritos. Talvez, a média ponderada das minhas crônicas traga uma impressão algo depressiva dos nossos tempos; talvez, sim. Mas a intenção é que esse trabalho literário sirva como alerta e alento, diversão e reflexão, tapa na cara e abraço afetuoso, riso frouxo e lágrima contida, tudo ao mesmo tempo agora — ou daqui a pouco. Espero, realmente, estar conseguindo.
O Rio de Janeiro é o cenário de quase todas as suas crônicas. Daí saíram todos os nossos grandes cronistas: Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues, José Carlos Oliveira, Antônio Maria, Fernando Sabino. O que é que essa cidade tem que as outras não têm?
Quando Estácio de Sá fundou o Rio de Janeiro, recebeu um velho pergaminho das mãos do pajé mais respeitado da região. Segundo consta, o velho índio teria dito que ali estavam todos os segredos da cidade, transcritos em português castiço pelos “homens verdes cabeçudos que vieram do céu numa nave prateada” (SIC). Maravilhado com o presente, Estácio de Sá patrocinou um open bar no botequim mais caro de Ipanema, propriedade de um francês meio imundo chamado Antoine. Lá pelas tantas, Estácio decidiu abrir o pergaminho, mas, de tão bêbado, acabou queimando-o totalmente no lampião a querosene que estava em cima da mesa. Se encontrar os marcianos por aí, Paulo, pode repetir sua pergunta. Só não esqueça de me contar a resposta, meu amigo!


