“E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria.” (Lc 2, 7)

Imagem ilustrativa da imagem O Natal de Antônio
| Foto: iStock

Antônio, aos sete anos, se viu sozinho em Belém do Pará com o irmão três anos mais velho, quando a família decidiu voltar de navio para Portugal sem eles, porque não havia como comprar as passagens de todos.

Todos os dias — sim, todos os dias — eu penso na solidão de Antônio e seu irmão, deixados à própria sorte num país imenso e desconhecido. O ano era 1896. Minha avó contava que os dois irmãos meninos sobreviveram por um tempo trabalhando no Mercado Ver-o-Peso. Onde dormiam? Muito provavelmente na rua. Imagino o pequeno Antônio, um portuguesinho de olhos claros, tentando se ajeitar entre os farrapos, nas imediações do mercado. Mamãe, por que você me deixou sozinho aqui? Este mundo é tão grande, na floresta sem fim moram monstros, os homens maus andam por aí no escuro da noite.

No mês de outubro, Antônio assistiu, maravilhado, à gigantesca maré de gente na procissão do Círio. Os homens, as mulheres, as crianças, os velhos caminhavam pelas ruas de Belém. No rosto escuro daquele povo, marcado pela pobreza, corriam lágrimas de devoção à mais pura e bondosa das criaturas de Deus: Maria de Nazaré. E o mais surpreendente é que aquela devoção se iniciara no país natal de Antônio.

Três meses depois, Antônio e seu irmão passariam o seu primeiro Natal no Brasil. Papai e mamãe não estavam lá. Os irmãos não estavam lá. Como estaria a aldeia nos arredores de Guimarães, onde Antônio nascera? Alguém, em algum lugar deste mundo, pensava naquele momento em dois irmãozinhos perdidos na floresta dos homens? Alguém diria, mesmo que numa voz quase inaudível: “Tenho saudades de você, Antônio”?

Antônio e o irmão fizeram uma pequena fogueira com galhos e comeram algumas frutas que um vendedor do mercado lhes dera como pagamento. Enrolados em seus farrapos, deitados sobre folhas de jornal, permanecerem em silêncio. Ao longe, podiam ouvir as vozes alegres das famílias que comemoravam o Natal em casa. Foi nesse momento que Antônio fechou os olhos e pediu a Deus que lhe enviasse um sonho como presente de Natal.

Antônio então viu uma cidade imensa, à beira-mar, e um adolescente trabalhando como cobrador de bondes. Depois, viu esse mesmo rapaz aprendendo o ofício de motorneiro. Nos intervalos do serviço, tentava entender as frases impressas em um jornal; acabou aprendendo sozinho a ler e escrever. Depois Antônio viu uma estrada de ferro, e um homem que parecia muito importante, com uma faixa verde e amarela, subir ao trem conduzido por ele, e condecorá-lo pelos bons serviços prestados. Viu uma mulher — filha de índios e negros — e 11 filhos. Viu o nascimento e a morte de sua prole. Viu filhos, netos, bisnetos, gerações e gerações de crianças e jovens e adultos, com suas alegrias e angústias, celebrando outros Natais.

Ao final do sonho, apareceu Ela — Nossa Senhora de Nazaré, Nossa Senhora da Amazônia, a mulher que todos amavam em Belém. A Virgem pronunciou claramente as palavras:

— Tenho saudades de você, Antônio.

Palavras que eu repito hoje, 122 anos depois. Feliz Natal, Antônio Costa, meu bisavô, meu herói.

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