O menino do desfile
Homenagem ao garoto Ivo César Gonzales, de 9 anos, que desfilou ao lado do presidente Jair Bolsonaro no Dia da Pátria
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terça-feira, 10 de setembro de 2019
Homenagem ao garoto Ivo César Gonzales, de 9 anos, que desfilou ao lado do presidente Jair Bolsonaro no Dia da Pátria
Paulo Briguet 

Daqui a muitos anos, Ivo, quando você for adulto e estiver rodeado por seus filhos e netos, contará a eles a história daquela manhã de setembro. Jamais deixará sua memória o momento em que você e seus pais saíram de casa para acompanhar as festividades do Dia da Pátria. Não se esquecerá da camisa da Seleção, das bandeiras verde-amarelas, nem do céu azul. Nunca se apagará a emoção da hora em que o Rolls Royce parou, e o homem com a faixa presidencial chamou justamente você dentre a multidão.
O presidente o recebeu com um sorriso, Ivo, e você assistiu ao restante do desfile de uma posição privilegiada. As pessoas o olhavam e batiam palmas; muitos meninos gostariam de estar ali onde você estava. E eu sei que, por um instante, Ivo, deve ter passado por sua mente a lembrança de um 7 de setembro antigo, quando um homem, às margens do riacho do Ipiranga, recebeu uma carta e pronunciou três palavras que entrariam para a história:
— Independência ou Morte!
Você um dia saberá, Ivo, que em certa época existiu aqui um grupo de homens maus que preferiam a morte à independência. Esses homens maus não gostaram quando viram a sua foto na mídia do Brasil e do mundo; e foi certamente com o coração cheio de inveja e ressentimento que alguém deplorou a emoção e o orgulho que você sentiu. Da redação de um famoso site de notícias, saiu o seguinte comentário:
“Menino imbecil, vai se alfabetizar.”
Quando leu essa frase, um professor chamado Carlos Nadalim, secretário nacional de Alfabetização do MEC, lembrou-se de que era véspera de 8 de setembro, data instituída pela ONU em 1967 como o Dia Mundial da Alfabetização.
Quem escreveu o estúpido comentário sobre você, Ivo, certamente pensava que a educação só vale quando transforma as crianças em militantes políticos. “Alfabetização”, para esses homens maus, é só uma forma de chegar ao poder e controlar a vida de todos nós. Foi por isso, Ivo, que o Brasil por muitos anos ocupou os últimos lugares nas Copas do Mundo da educação. Quando você participou daquele desfile, o professor Nadalim e sua equipe estavam lutando para mudar essa situação vergonhosa e haviam acabado de lançar um plano para educar todas as crianças brasileiras — a Política Nacional de Alfabetização (PNA).
Lembro-me de uma frase que vinha escrita nas antigas cartilhas: “Ivo viu a uva”. Eu espero que você, Ivo, veja muito mais do que isso no seu futuro: um país justo e democrático, um país cristão e humano, um país inteligente e culto, um país que não sacrifica seus filhos no altar da guerra política.
Desculpe, Ivo. E parabéns por ter entrado nesse grande desfile chamado História. O Brasil está com você.


