Imagem ilustrativa da imagem O macaco e a política
| Foto: Natalino Lopes Grego/Divulgação

“Democracia é a arte de administrar o circo a partir da jaula do macaco.”
(H. G. Mencken)

Foi Napoleão Bonaparte quem fez o terrível vaticínio: “A política é o destino concreto do nosso tempo”. Há duzentos anos a humanidade só faz confirmar as palavras do imperador francês. No mundo moderno, nossos atos, palavras e pensamentos tendem a transformar-se em meros elementos do jogo político; o poder é considerado a única chave explicativa para a existência humana; a politização total da vida tornou-se um dogma universalmente aceito. Conceitos como verdade, eternidade, amor ao próximo e consciência moral foram relegados ao ostracismo. Somos escravos da política; escravos da nossa própria pequenez; símios que tentam ser deuses.


E, no entanto, quisera eu ser como Franz Kafka, que anotou em seu diário, em 2 de agosto de 1914: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, fui nadar”. Quisera eu passar um ano, uma década, sem participar de nenhuma discussão política, sem sequer saber o nome do presidente, do governador, dos ministros. Quisera eu apenas ficar entre meus livros e crônicas, ouvindo Bach e Haydn, contemplando as formas das catedrais góticas, relendo Machado e Tchekhov e Kafka.


Quando recusei o convite para trabalhar no governo, no final do ano passado, muitos se espantaram. Disseram: “Paulo, essa oportunidade não surge duas vezes na vida, é o cavalo que passa encilhado!” O problema é que não sei cavalgar; não tenho a menor vocação para as intrigas e malícias do mundo político. Conheço meu tamanho, e ele é pequeno — tão pequeno quanto esta crônica. Só consigo admirar políticos quando eles não agem como políticos; é o caso do nosso presidente.


Estive revendo algumas aulas do professor Olavo de Carvalho e deparei com o seguinte trecho, que faço questão de reproduzir aqui: “Ninguém se iluda: não há política liberal, conservadora, socialista, nazista, fascista, monarquista que coincida com a causa da liberdade humana — nenhuma. (...) O fato de se politizar tudo já é a escravização de todos, porque qualquer iniciativa que se tenha no sentido da liberdade humana será reaproveitada dentro da luta de um grupo pela centralização do seu poder. É exatamente disto que temos de libertar as pessoas”.


Doravante, esta será minha principal luta: libertar as pessoas da política. Trata-se de uma luta paradoxal, uma vez que só se pode combater a política fazendo política. Mas não tenho medo de paradoxos: a realidade se move através deles.


Na terça-feira, encontrei o macaquinho no ponto de táxi do bosque (esse aí que ilustra a coluna de hoje). Imediatamente me lembrei de um conto de Kafka, “Relatório para uma academia”, narrado por um macaco que abandona a condição símia e se transforma em conferencista. Assim começa o conto:


“Conferem-me a honra de me convidar a oferecer à Academia um relatório sobre a minha pregressa vida de macaco. Não posso infelizmente corresponder ao convite nesse sentido.”


Da mesma forma que o macaco de Kafka se libertou da condição símia, eu um dia me libertarei da minha condição política. Que Deus me ajude.



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