O interrogatório do Professor Gabriel G.
Em audiência comandada por um colega de departamento, Gabriel G. é acusado do pior dos crimes: ser de direita
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de setembro de 2019
Em audiência comandada por um colega de departamento, Gabriel G. é acusado do pior dos crimes: ser de direita
Paulo Briguet
— Gabriel G., eu não vou começar esta audiência dando-lhe bom dia, pois dar bom-dia a você está oficialmente proibido. Meu nome é Agente J., sou membro do Alto Comissariado para Assuntos Ideológicos e minha função aqui não é fazer cortesias, mas perguntas. E a sua obrigação é dar respostas.
— J., você não precisa se apresentar... Eu o conheço há mais de 20 anos, somos colegas de departamento e professores da mesma área.
— Eu sou professor, você é “professor”, entre aspas. Não venha querendo me conquistar com sentimentalismos pequeno-burgueses. Um grupo de alunos denunciou-o como direitista. Você tem consciência da gravidade dessa denúncia?
— Não acho que ser de direita seja um crime. Até onde eu sei, vivemos numa democracia...
— Arrá! Peguei você. Essa é uma resposta tipicamente negacionista! Nega ser direitista, portanto nega a escravidão, o Holocausto, os quilombolas, a opressão contra as mulheres, o aquecimento global, o Sínodo da Amazônia e, o pior de tudo, a ditadura cívico-militar brasileira. Daqui a pouco já vai defender o Ustra.
— Mas, Agente J., isso é um absurdo! Eu não me referi a nenhum desses assuntos. Apenas disse que ser de direita não é crime.
— A sua fala só confirma a denúncia feita pelos alunos: você não passa de um miliciano, bolsonarista, fundamentalista religioso, indigno de ensinar nesta Universidade.
— Mas eu dei aulas por mais de duas décadas, publiquei vários livros, fiz pós-doutorado na França, até pouco tempo atrás era amigo de todos vocês no Departamento... Como posso ser fundamentalista religioso se escrevi, com certa simpatia, sobre Nietzsche e Sade?
— De fato, você nos enganou por muito tempo, Gabriel G.! Pensávamos que era um dos nossos, defensor da justiça social e dos oprimidos. Mas, de repente, tudo ficou claro quando você virou amiguinho do Filipe Barros, do Bernardo Küster, do Silvio Grimaldo, do Paulo Briguet... Sabemos que você até bebe cerveja com eles.
— E isso é crime?
— Beber com milicianos? É crime de alta traição!
Ao dizer esta última palavra, o Agente J. caiu em choro convulsivo. Não sabemos o que ele guardava na memória, mas certamente era algo inconfessável naquele momento.
O Professor Gabriel G. levantou-se de sua cadeira, deu a mão ao Agente J., abraçou-o e lhe sussurrou ao ouvido:
— Fique em paz... Jamais seremos amigos, mas eu o perdoo.
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