Alguém certamente havia caluniado o professor Gabriel G., pois um dia ele foi punido sem ter feito mal algum. Um colega de departamento deu-lhe a notícia de que um grupo de 33 alunos fizera um abaixo-assinado com a solicitação de que G. não mais lhes desse aulas. O mesmo colega disse a G. que a sua disciplina fora dividida em duas, tal como ocorrera com a cidade de Berlim nos anos 60. Gabriel G. não aceitou a humilhação, e decidiu recorrer à Justiça para continuar dando aulas como sempre fez.

Imagem ilustrativa da imagem O estranho caso do professor Gabriel G.
| Foto: Lilian Manganaro/Divulgação

O mais estranho é que os 33 alunos do abaixo-assinado não souberam explicar em que consistia, afinal, a falta cometida pelo professor. Admirado pelos alunos e colegas ao longo de duas décadas na universidade, autor de bons livros, pesquisador renomado, G. vinha sendo um modelo de excelência nas atividades acadêmicas – até o momento em que assumiu posições políticas consideradas “de direita”. A partir desse dia, como que por mágica, G. tornou-se um pária: suas visões passaram a ser irrelevantes, seu caráter foi desacreditado e a sua presença na universidade (e no mundo) considerada um erro.

Gabriel G. recorreu a diversas instâncias da universidade, mas ninguém quis ouvi-lo. Seus colegas de departamento nem sequer dirigiam a palavra a ele; até mesmo um simples bom-dia lhe era negado. Um professor, conhecido de muitos anos, ofereceu-se de bom grado para assumir a cadeira de G., como se a traição fosse um ato de benevolência. Um muro – da vergonha, do rancor, do silêncio – se ergueu entre o professor e seus companheiros de departamento.

O professor G. teve acolhimento entre um pequeno grupo de estudantes que enxergaram o absurdo da situação. E, também, de um curioso movimento nomeado “A Casa da Tolerância”. Esses jovens saíram, pois, em defesa de G. e decidiram tornar público o processo desumano pelo qual o docente está passando. Ficou claro, para os membros da “Casa”, que o objetivo dos adversários de Gabriel G. não é debater com ele, mas destruí-lo, expulsando-o do meio acadêmico e privando-o do trabalho que ele ama.

Gabriel G. e seus jovens amigos fizeram uma assombrosa descoberta: perceberam que, desse pequeno caso individual, depende o futuro e a sobrevivência da própria universidade. Se eles se calarem, o germe da censura e da opressão transformará o centro do conhecimento em ruínas. Se o professor Gabriel G. se calar, até as pedras gemerão.

E vocês pensam que essa é uma história fictícia? Enganam-se. Trata-se exatamente do drama que o professor Gabriel Giannattasio, do Departamento de História da UEL, está vivendo agora, unicamente por ser considerado “de direita”.

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