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Londrina

Paulo Briguet - Avenida Paraná

Atualizado em 04/09/2019, 09:12

O Comendador Olavo de Carvalho

Memórias e reflexões do filósofo brasileiro que recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco, no último dia 30

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de setembro de 2019

Paulo Briguet
AUTOR autor do artigo

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Imagem ilustrativa da imagem O Comendador Olavo de Carvalho Imagem ilustrativa da imagem O Comendador Olavo de Carvalho
|  Foto: Josias Teófilo/Divulgação
 

Liguei para o professor Olavo de Carvalho e o cumprimentei pelo recebimento da Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco, no último dia 30, em Washington. Trata-se, a meu ver, de uma merecidíssima homenagem ao maior educador brasileiro em atividade. E pensar que, no início dos anos 90, Olavo terminou de escrever a sua obra-prima, “O Jardim das Aflições”, em um minúsculo apartamento do condomínio carioca conhecido como “Favelão”. Na época, por dificuldades financeiras, sua família vivia em São Paulo, enquanto ele terminava de escrever o livro, tendo por companhia ocasional apenas dois amigos: a diarista Judite e o diplomata e economista Roberto Campos. Ao ver Olavo com sua comenda, lembrei-me também de suas reflexões em uma conversa com o professor Hermes Nery, há cinco anos:

“Mil vezes na vida eu passei pela situação onde eu perdia tudo, não sobrava nada, nada, nada. E sobrava somente uma coisa: sobrava Deus, sobrava esperança do perdão dos meus pecados e esperança na vida eterna. É só isso que eu tinha. E é só isso que eu tenho. Eu não tenho mais nada. Eu posso morrer agora mesmo e não estou nem ligando. Eu só quero uma coisa: eu quero que Deus me perdoe os meus pecados e me leve para perto d’Ele. É só isso que eu quero.”

“O resto não existe. O resto vai passar. Tem gente que nasce sabendo, que entende isso por sabedoria infusa. Tem outros que só aprendem na base do sofrimento, que foi o meu caso. Então, a gente vê as pessoas nesse erro, nesse caos, e fica com dó. Não fico com raiva desses caras, eu fico com dó porque eu sei o que vai acontecer com eles. Eu sei que eles se vão desfazer em pó. E a gente não quer que isso aconteça para ninguém, nem para o pior inimigo.”

“A gente tem que agir sempre com o coração na mão. E só quem experimentou o sofrimento profundo, a perda de tudo, às vezes entende isso. A não ser que você nasça santo, o que não é o meu caso.”

“A minha vida foi uma sequência de erros medonhos. Mas eu fazia os erros e a resposta vinha, às vezes, triplicada, dez vezes pior. Então, nós não temos controle nenhum na nossa vida. A nossa vida só tem um sentido: nós estamos todos indo para a morte e para o confronto com Deus. Este é o ponto. É só isso que vai acontecer. O resto não vai acontecer. O resto é ilusão. Mas isto é fatal que aconteça. Então, quando chegar lá...o que eu quero é chegar lá e mostrar a minha santidade? – ‘Olha, Deus, como eu sou lindo’. Que nada! Eu estou chegando aqui todo sujo, todo arrebentado. Eu vi um filme, uma sequência de um filme maravilhoso. Um pastor vai falar com um moribundo no hospital. Ele pergunta ao moribundo – ‘Você se arrepende de alguma coisa?’. Ele diz: ‘De tudo!’ [gargalhadas]”

“Essa é que é a verdade. Eu só tenho porcaria, miséria, vergonha, fracasso. É só isso que eu tenho. Agora, tenho uma coisa que os outros não têm: a gente tem Jesus. E Ele vai nos tirar do buraco. É isso que nós devemos transmitir.”

Ao me despedir, perguntei ao Olavo se agora posso chamá-lo de Comendador. Ele riu.