Meu primeiro encontro com a morte
Faz quarenta e sete anos, mas eu posso ouvir o tom de voz de meus pais naquela noite
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de maio de 2019
Faz quarenta e sete anos, mas eu posso ouvir o tom de voz de meus pais naquela noite
Paulo Briguet 

“Começo a chamá-la agora apenas de m. Reduzida, ela toma menos espaço. Sem o ‘o’, ela perde o ruído oco do que é vão.”
(Elias Canetti, escritor búlgaro, aos 88 anos de idade)
Penso que meu primeiro encontro com a morte se deu aos dois ou três anos de idade, em nosso pequeno apartamento da Alameda Barão de Limeira, centro de São Paulo. Naquela época eu dormia na sala, no sofá bicama listrado que até hoje aparece-me em sonhos. Já eram mais de dez horas, quer dizer, o “anjo do sono” já havia passado com seu implacável caderninho de anotações para saber se as crianças estavam dormindo. Se eu não estivesse — dizia meu pai —, o anjo faria um terrível X no caderninho, tornando-me um cidadão fichado lá nos arquivos do Papai do Céu.
Mas naquela noite eu não estava dormindo; apenas havia fechado os olhos durante a inspeção do anjo. Meus pais estavam acordados. Abrindo um olho só, verifiquei que as luzes da cozinha estavam acesas. Não sei se já havia contado a vocês sete, mas o nosso apartamento na Barão de Limeira era bem pequeno; eu dormia na sala. Portanto, era relativamente fácil ouvir o que meu pai e minha mãe conversavam na cozinha. Faz quarenta e sete anos, mas eu quase posso ouvir, não as palavras, mas o tom de voz de Paulo e Aracy naquela noite. Era uma fala sussurrada, repleta de angústia e preocupação.
Muitos anos depois, já adulto, soube o motivo daquela conversa. Eles haviam recebido a carta de um amigo exilado, João, um dos militantes de esquerda libertados pelo regime militar após o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969. Não sei como a carta de João chegou até eles, se pelo correio ou pela mão de terceiros. Mas o fato é que João informava sobre as tensões do regime chileno durante o governo socialista de Salvador Allende, que precederam a tomada de poder pelo general Augusto Pinochet. João havia passado um período em Cuba, onde treinou guerrilha. Morreria dois anos depois, no interior da Bahia, um mês antes do nascimento de minha irmã.
João era o melhor amigo de meu pai.
Quando penso naquela noite, penso em tudo que meus pais fizeram para nos proteger do mal, da angústia e do sofrimento. Paulo trocou a luta política pela vida familiar, dedicando-se ao trabalho com a obstinação de quem passara muitas dificuldades na juventude. Aracy era uma espécie de heroína, que se equilibrava entre os cuidados com os filhos e as aulas de história em escolas da periferia paulistana. Até hoje, ao pensar em minha mãe, lembro-me dela em movimento para cuidar de alguém. Essas super-heroínas que aparecem no cinema hoje em dia me parecem bem menos fortes do que Aracy.
Às vezes, quando estou escrevendo, penso na carta que João enviou a meus pais. Talvez as suas palavras contivessem, em meio às análises da situação política, alguma mensagem de esperança e amizade; quem sabe até alguma referência sobre aquilo que não morre jamais. Ainda que João tenha se esquecido de dizer isto a Paulo e Aracy, procuro fazer com que meu trabalho seja uma carta de amor que eles possam ler na vida eterna.


