Imagem ilustrativa da imagem Meu filho, meu imperador
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Estou lendo com grande interesse o livro “Cartas Brasileiras”, uma seleção de 80 correspondências que, de diferentes modos, marcam e recontam a história do nosso país. Organizada pelo escritor Sérgio Rodrigues, a antologia tem páginas inesquecíveis. É um daqueles livros tão bons que você adia o fim da leitura para se deleitar por mais tempo. Até o momento, as duas cartas que mais me comoveram foram escritas por mulheres. Curiosamente, as duas esposas do príncipe-regente e depois imperador D. Pedro I.

A primeira carta foi escrita por D. Leopoldina, no dia 2 de setembro de 1822. Em poucas linhas, a mulher do então príncipe-regente Pedro de Alcântara descreve a grave situação em que se encontra a nação, ainda dependente de Portugal:

“O Brasil está como um vulcão. Até no Paço há revolucionários. Até portugueses são revolucionários. As Cortes portuguesas ordenam a vossa partida imediatamente, ameaçam-vos e humilham-vos. Meu coração de mulher e esposa prevê desgraças, se partirmos agora para Lisboa. (...) O Brasil será em vossas mãos um grande país. Com o vosso apoio ou sem o vosso ele fará a sua separação. O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrecerá. Ainda é tempo de ouvirdes o conselho de um sábio que conheceu todas as cortes da Europa, que além de vosso ministro fiel, é o maior de vossos amigos. (...) Pedro, o momento é o mais importante de vossa vida.”

A carta alcançou Pedro às margens do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822. O resto da história todos conhecem.

A Imperatriz Leopoldina morreu jovem e deprimida, com apenas 29 anos. Em 1831, D. Pedro I estava casado com sua segunda esposa, a nobre alemã Amélia de Leuchtenberg, quando decidiu voltar para Portugal e lutar pelo trono contra seu irmão, Miguel. Deixou no país seu filho de apenas cinco anos: o imperador menino, D. Pedro II. A carta de Amélia ao enteado é um documento lancinante, repleto de amor pela criança que deixava no país:

“Meu filho do coração e meu imperador,Adeus, menino querido, delícia de minha alma, alegria dos meus olhos, filho que meu coração tinha adotado. Adeus para sempre.És o espetáculo mais tocante que a terra pode oferecer! Quanta grandeza e quanta fraqueza a humanidade encerra, representadas por ti, criança idolatrada: uma coroa, um trono e um berço!A púrpura ainda não serve senão para estofo, e tu, que comandas exércitos e reges um Império, ainda careces de todos os desvelos e carinhos de mãe.(...)Dorme, criança querida, enquanto nós, teu pai e tua mãe de adoção, partimos para o exílio, sem esperança de nunca mais te vermos... senão em sonhos.Adeus, órfão-imperador, vítima de tua grandeza antes que a saibas conhecer.Toma este beijo, e este... e este último. Adeus para sempre, adeus!”

D. Pedro II e D. Amélia continuaram a se corresponder durante toda a vida.

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