Matar a própria mãe
Matricídio em Londrina choca o país e nos faz pensar na última súplica do Pai-Nosso
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de novembro de 2019
Matricídio em Londrina choca o país e nos faz pensar na última súplica do Pai-Nosso
Paulo Briguet 
O irmão entregará seu irmão à morte. O pai, seu filho. Os filhos se levantarão contra seus pais e os matarão.” (São Mateus 10, 21)
Minha mãe morreu há oito anos. De lá para cá, não passo um único dia sem sentir a sua falta. Do mesmo modo, a ausência de meu pai, que nos deixou há 11 anos, incorporou-se ao meu próprio ser. Costumo dizer, portanto, que a saudade não é algo que sinto, mas algo que sou. E creio que a maioria das pessoas deve ter sentimentos semelhantes em relação aos seus mortos queridos.

É por isso que o Brasil inteiro se chocou com o caso ocorrido em Londrina na última quinta-feira, quando um adolescente foi apreendido por matar a mãe e ferir gravemente o padrasto. O bárbaro crime aconteceu em 31 de outubro. Ao esfaquear a mãe e o padrasto na cama, o rapaz usava uma máscara de Halloween. Depois de cometer o assassinato, ele se dirigiu à escola, um colégio na zona leste.
Somente os grandes mestres da literatura tiveram a capacidade de descrever o que se passa na mente de alguém que comete um crime dessa natureza. Em “Os Irmãos Karamázov”, Dostoiévski investiga um parricídio (morte do pai pelo filho); em “O Veredicto”, Kafka descreve um filicídio (morte do filho pelo pai); em “Medeia”, Eurípides também nos mostra um filicídio (morte dos filhos pela mãe). Mas, talvez por falha de memória, não me lembro de nenhuma obra literária que narre o assassinato da mãe pelo filho. Shakespeare chega perto disso em “Hamlet”, mas o príncipe da Dinamarca não comete o matricídio. Talvez porque matar a própria mãe seja algo tão terrível que nem mesmo a literatura seja capaz de dar verossimilhança ao fato. Estamos diante de uma dupla transgressão do Decálogo judaico-cristão. O matricida afronta o quarto e o quinto mandamento (respectivamente, “Honrarás pai e mãe” e “Não matarás”); só mesmo Deus, em sua infinita misericórdia, poderá levar o perdão quem comete um crime tão hediondo. Não é por acaso que o Pai-Nosso termina com a súplica: “Mas livrai-nos do mal”.
A família do adolescente informou que ele vinha apresentando um comportamento estranho nos últimos tempos. Passava quase o dia inteiro trancado no quarto, jogando videogame, navegando na internet e assistindo a filmes de temática sombria. Consta que três psicólogos o atenderam, mas nenhuma atitude mais concreta foi tomada. O crime aconteceu exatamente no dia do Halloween. Parece-me evidente que esses elementos devem ser usados na investigação do caso.
Todos nós moramos em três cidades: Atenas, Roma e Jerusalém. De Atenas, vem o saber filosófico para explicar o que aconteceu naquela manhã de Halloween. De Roma, vem o saber jurídico para que esse ato abominável seja avaliado pela lei. Mas de Jerusalém vem o mais importante dos saberes: aquele que nos protege do mal e nos conduz à vida eterna, onde moram os pais e as mães que morreram em Deus.


