Há alguns anos levei o Pedro, ainda pequeno, para conhecer o Museu Histórico de Londrina. A certa altura, ele perguntou:

— Papai, de quem são essas botas?

Expliquei a ele que as botas pretas de cano alto pertenceram ao pioneiro George Craig Smith (1909-1992). Brasileiro descendente de escoceses e funcionário da Companhia de Terras Norte do Paraná, George tinha apenas 20 anos quando liderou aquela que passou à história como a primeira caravana de Londrina. Isso aconteceu na tarde de 21 de agosto de 1929.

Cidades nascem muitas vezes. Londrina nasceu oficialmente no dia 10 de dezembro de 1934, quando foi elevada à condição de município; nasceu espiritualmente em 11 de março de 1934, quando foi celebrada a primeira missa na cidade; nasceu culturalmente em 3 de março de 1936, quando foi fundado o Colégio Mãe de Deus; nasceu politicamente no dia 5 de junho de 1937, quando foi fundada a ACIL; nasceu heroicamente na noite de 17 de julho de 1975, quando sobreviveu à geada negra. Mas, se fosse preciso escolher uma certidão de nascimento para Londrina, este cronista de sete leitores não hesitaria em escolher aquela tardezinha de quarta-feira, quando George e mais dez homens abriram uma pequena clareira na mata e iniciaram a história da nossa cidade.

Portanto, meus sete amigos, hoje Londrina está fazendo 90 anos!

O homem que fincou a primeira estaca de Londrina — onde hoje se situa o Marco Zero — foi um russo exilado pelos comunistas, o engenheiro agrimensor Alexander Razgulaeff. Ele é descrito pelos colegas como um homem plenamente adaptado ao ambiente do sertão. “Razgulaeff compreendia tão bem os nossos caboclos que parecia um autêntico brasileiro”, relata o cozinheiro do grupo, Erwin Fröhlich. Ali também estavam o empreiteiro português Alberto Loureiro (descrito por Fröhlich como um “marimbondo de braveza”), seu sócio Joaquim B. Barbosa, o agrimensor auxiliar Spartaco Bambi (filho de italianos), o auxiliar de serviços gerais Geraldo Pereira Maia e mais alguns heróis anônimos de nossa história.

A primeira caravana partiu de Ourinhos no dia 20 de agosto, viajando de caminhão Ford até Jataizinho. A partir dali, foram 22 quilômetros no lombo de burros e mulas, através do Picadão Três Bocas, incluindo uma travessia do Tibagi a nado, enquanto os mosquitos atormentavam homens e animais.

Sim, houve expedições anteriores que percorreram a região. Sim, houve caboclos e indígenas que habitaram aquelas matas. Mas, na chegada da caravana, iniciava-se um processo de colonização que consistiu no maior projeto de reforma agrária já promovido pela iniciativa privada em todo o planeta. Londrina nasceu como empresa — e mais do que isso: como uma empresa que semeou prosperidade e justiça social.

A cidade que tanto amamos nasceu graças ao sonho daquele pequeno grupo de pioneiros. A eles, que hoje vivem na história e na memória, nosso mais profundo respeito e reconhecimento.

Os herdeiros dessas botas somos nós, Pedro.

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