Lamentação do menino morto
Só a presença do mal no mundo explica a morte do pequeno M.G., de 9 anos
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terça-feira, 17 de setembro de 2019
Só a presença do mal no mundo explica a morte do pequeno M.G., de 9 anos
Paulo Briguet 

Ultimamente venho escrevendo sobre meninos: Rhuan, de 9 anos, mártir da ideologia de gênero; Ivo, de 9 anos, insultado depois de desfilar no carro presidencial; Antônio, de 13 anos, que caiu do cavalo e se tornou o maior cirurgião do país.
Às vezes, a história dos meninos tem um final feliz, como aconteceu no caso de Antônio. Mas, na última sexta-feira, não foi assim. Em circunstâncias que ainda estão sendo investigadas pela polícia, o pequeno M.G., de 9 anos, encontrou a morte ao lado do próprio pai, em um desastre na rodovia PR-445, em Londrina. O carro dirigido por Marco Antônio Alves colidiu com um caminhão na estrada; pai e filho tiveram morte imediata.
A mãe de M.G. relatou à polícia que há vários anos vinha recebendo ameaças do ex-marido. Numa mensagem de voz atribuída ao pai do menino, ouve-se claramente a seguinte frase: “Vou fazer isso pra você sentir falta pro resto da sua vida (...) Então você achou que eu ia aceitar numa boa, ia ser o idiota da história?!” A polícia trabalha com a tese de que a colisão foi premeditada pelo homem.
Desde que comecei a escrever, ainda na infância, sempre considerei impossível definir com palavras a dor da mãe que perde um filho. Creio que seja a maior dor do mundo — essa dor que Nossa Senhora sentiu no intervalo entre a cruz e a ressurreição, essa dor que a mães dos inocentes sentiram depois do massacre de Herodes, essa dor que Homero, Shakespeare e Tolstói procuraram retratar em suas obras. Se eles, os gênios da humanidade, não conseguiram retratar o mesmo drama em toda sua intensidade, o que poderemos dizer nós, mortais comuns?
“Adeus, mãe” — disse o menino, numa mensagem de vídeo. Nessa pequena frase, de apenas duas palavras, é possível enxergar toda uma vida que poderia ter sido e que não foi. Vejo aí a lamentação de uma criança que foi impedida de crescer, de estudar, de conhecer, de amar, de ter filhos, de ter netos, de contemplar a vida em todas as suas belezas e assombros. “Adeus, mãe” também quer dizer que a história foi interrompida agora, mas um prosseguirá no mundo onde o tempo e o espaço já não exercem mais seu domínio — a eternidade. A lamentação do menino morto é também uma consolação para o mundo, um pequeno sinal de esperança no coração da tragédia.
M.G. não foi morto por circunstâncias sociais, políticas ou econômicas. Tudo indica que ele foi vítima de algo em que muitas pessoas não acreditam mais: o MAL. Só a presença do mal no mundo explica tamanha monstruosidade.
A morte dessa criança me fez pensar na cena mais dolorosa do livro que acabo de ler, “Serotonina”, do escritor francês Michel Houllebecq. A certa altura, o personagem principal, consumido pelo desespero, decide matar o filho de 4 anos de uma ex-namorada. Na ficção, o homem desiste de realizar o seu crime no último instante. Na vida real, infelizmente não foi o que aconteceu com o menino londrinense.
Há certas coisas que só vamos entender quando estivermos como crianças, diante de Deus. Livrai-nos do mal, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz.


