Inesquecível Led Zeppelin
O surgimento de um lendário personagem do ambiente universitário nos anos 90
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de maio de 2019
O surgimento de um lendário personagem do ambiente universitário nos anos 90
Paulo Briguet 

Poucas pessoas na universidade sabiam que o verdadeiro nome de Inesquecível Led Zeppelin era Teófilo. O apelido surgiu durante uma palestra de um vetusto catedrático do curso de Direito, à qual meu amigo compareceu após consumir, jogando sinuca no Bar dos Baianinhos, um litro da temível aguardente chamada Fogo Paulista.
Naquela noite, o palestrante falou durante uma hora e meia sobre temas históricos e filosóficos da mais alta gravidade; o tema da palestra era “Atualidade da Revolução Soviética de 1917 na Ordem Jurídica Brasileira”, e o orador fazia citações em grego e em russo que não se dava ao trabalho de traduzir.
Meu amigo dormiu quase o tempo todo; só não foi retirado pela segurança porque dominava uma incrível técnica de dormir sem roncar (que havia aprendido com uma ex-namorada professora de tai chi chuan por correspondência). A meia hora final foi dedicada às perguntas do público. Vários docentes da área de humanidades fizeram aquelas típicas perguntas que na verdade são pequenas conferências, mal escondendo o fato de que gostariam de estar no lugar do palestrante. Quando este já se preparava para as considerações finais, meu amigo levantou-se e pediu a palavra. Ninguém o conhecia por ali, pois era um estudante do primeiro ano de Medicina. Ele caminhou em ziguezague até o microfone, lançou um olhar enevoado sobre os presentes, sorriu e disse com a voz ao mesmo pastosa e empostada:
— Aqui todox já falamox sobre perxonageinx importantix para noxa cultura. Max ficou faltando um. Quando é que voxês vão dar o devido valor ao Inesquecível Led Zeppelin?
Como testemunha ocular do fato, posso dizer que a reação inicial do público foi o silêncio. Um silêncio abismal que durou quase 40 segundos, até que o palestrante fez menção de responder, e ouviu-se aquele irritante e agudo som de microfonia. Esse ruído funcionou como um despertador para uma gargalhada espasmódica que tomou conta de todos os presentes, inclusive o conferencista, impossibilitando a realização de qualquer outra atividade intelectual naquela noite. Havia apenas uma exceção ao riso coletivo: o próprio estudante de Medicina, que permaneceu parado, sério, na postura de quem fez uma questão pertinente e exige uma resposta à altura. Note-se que, ao pronunciar a expressão “Inesquecível Led Zeppelin”, alcunha que o acompanharia para todo o sempre, não havia traço de bebedeira na voz de meu amigo. Ele disse “Inesquecível”, depois “Led”, depois “Zeppelin” com a segurança de alguém que estivesse entoando um mantra sagrado numa liturgia antediluviana.
No dia seguinte, o nome Inesquecível Led Zeppelin era conhecido em toda a universidade. Até as tias do cafezinho sabiam quem ele era. Durante uma reunião da militância na sede da Rua Hugo Cabral, em frente ao Brasil, cogitou-se mesmo lançá-lo como candidato à presidência do DCE, o que só não se consumou porque o presidenciável encontrava-se de ressaca por alguns dias seguidos na República da Humaitá. Sei disso porque pessoalmente preparava todos os dias preparava o chá de boldo para ele. Ressaca de Fogo Paulista é uma coisa inesquecível; tanto é que meu amigo nunca mais se lembrou que o seu nome era Teófilo.


