Imagem ilustrativa da imagem Hannan: castigo sem crime
| Foto: Ricardo Chicarelli - Grupo Folha

Hannan José da Silva trabalhava no cinema de um shopping situado no Marco Zero de Londrina, onde há 90 anos chegou a primeira caravana da Companhia de Terras. Trabalhador e estudante, ele sonhava em cursar Jornalismo. No último domingo, prestou a primeira fase do vestibular da UEL; pelo seu desempenho, tinha boas chances de ser aprovado. Na segunda-feira, por volta da meia-noite, quando terminou a última sessão de cinema — o filme era “Malevóla, a Dona do Mal” —, Hannan pegou sua mochila e iniciou sua caminhada até as proximidades do Lago Igapó 4, onde morava com a mãe. Ao passar pela Praça Rocha Pombo, aproximou-se dele um jovem branco, de olhos verdes, cenho franzido e camiseta cor de sangue.

Fernando Inácio Andrade tem a mesma idade de Hannan: 21 anos. Há oito é usuário de crack e vive nas ruas. Já esteve internado para tratamento diversas vezes. No ano passado, foi preso em Maringá, acusado de roubo. Liberado após a audiência de custódia, Fernando sumiu. Em dezembro, a Justiça o condenou, à revelia, por furto.

Às duas da manhã da terça-feira, Fernando foi abordado por dois policiais militares na Rua Rio Grande do Norte (Centro de Londrina). Encontraram com ele um i-Phone 6. Evidentemente, o aparelho não lhe pertencia. Os PMs ligaram então para um número registrado no aparelho. Em pouco tempo, conseguiram identificar o dono do celular: Hannan José da Silva. Ligaram para a casa do jovem, mas ele não tinha retornado. Naturalmente, a mãe ficou preocupadíssima.

No começo da tarde de terça-feira, um corpo com sinais de estrangulamento foi encontrado na Praça Rocha Pombo, situada entre o Museu de Arte (antiga Estação Rodoviária) e o Museu Histórico (antiga Estação Ferroviária). Era Hannan.

No início da noite, Fernando foi encontrado e confessou o crime. Não revelou sinais de arrependimento, apenas preocupou-se com o fato de que sua confissão havia sido divulgada pela imprensa. Fernando também é suspeito de matar o chef de cozinha Fábio Ábila, há dez dias, no Bosque de Londrina. Fábio tinha 49 anos — a minha idade.

Hannan, é com você que eu gostaria de falar agora, meu jovem. Há 30 anos, cheguei a Londrina com um sonho igual parecido com o seu. Prestei o vestibular para Jornalismo na UEL e fui aprovado. Durante muitos anos, caminhei sozinho pelas noites de Londrina, e por isso não posso deixar de me identificar com você. Mas, no tempo em que circulava pelas noites, eu era apenas um boêmio; você, ao contrário, era um trabalhador.

Infelizmente, Hannan, não poderemos mais trabalhar juntos no jornal. E sabe por quê? Porque as nossas doutas autoridades inventaram um negócio chamado “audiência de custódia”. Se essa aberração não existisse, é muito provável que o seu assassino não estivesse livre e solto para lhe matar com um cadarço.

Às vezes, Hannan, eu acho que um milagre estar vivo neste país que protege os criminosos e condena as vítimas. Fernando teve um crime sem castigo; você e o Fábio receberam o castigo sem crime.

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