Hannan: castigo sem crime
Hannan e Fábio, mortos no Centro de Londrina, são vítimas de uma aberração chamada “audiência de custódia”
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quinta-feira, 24 de outubro de 2019
Hannan e Fábio, mortos no Centro de Londrina, são vítimas de uma aberração chamada “audiência de custódia”
Paulo Briguet 

Hannan José da Silva trabalhava no cinema de um shopping situado no Marco Zero de Londrina, onde há 90 anos chegou a primeira caravana da Companhia de Terras. Trabalhador e estudante, ele sonhava em cursar Jornalismo. No último domingo, prestou a primeira fase do vestibular da UEL; pelo seu desempenho, tinha boas chances de ser aprovado. Na segunda-feira, por volta da meia-noite, quando terminou a última sessão de cinema — o filme era “Malevóla, a Dona do Mal” —, Hannan pegou sua mochila e iniciou sua caminhada até as proximidades do Lago Igapó 4, onde morava com a mãe. Ao passar pela Praça Rocha Pombo, aproximou-se dele um jovem branco, de olhos verdes, cenho franzido e camiseta cor de sangue.
Fernando Inácio Andrade tem a mesma idade de Hannan: 21 anos. Há oito é usuário de crack e vive nas ruas. Já esteve internado para tratamento diversas vezes. No ano passado, foi preso em Maringá, acusado de roubo. Liberado após a audiência de custódia, Fernando sumiu. Em dezembro, a Justiça o condenou, à revelia, por furto.
Às duas da manhã da terça-feira, Fernando foi abordado por dois policiais militares na Rua Rio Grande do Norte (Centro de Londrina). Encontraram com ele um i-Phone 6. Evidentemente, o aparelho não lhe pertencia. Os PMs ligaram então para um número registrado no aparelho. Em pouco tempo, conseguiram identificar o dono do celular: Hannan José da Silva. Ligaram para a casa do jovem, mas ele não tinha retornado. Naturalmente, a mãe ficou preocupadíssima.
No começo da tarde de terça-feira, um corpo com sinais de estrangulamento foi encontrado na Praça Rocha Pombo, situada entre o Museu de Arte (antiga Estação Rodoviária) e o Museu Histórico (antiga Estação Ferroviária). Era Hannan.
No início da noite, Fernando foi encontrado e confessou o crime. Não revelou sinais de arrependimento, apenas preocupou-se com o fato de que sua confissão havia sido divulgada pela imprensa. Fernando também é suspeito de matar o chef de cozinha Fábio Ábila, há dez dias, no Bosque de Londrina. Fábio tinha 49 anos — a minha idade.
Hannan, é com você que eu gostaria de falar agora, meu jovem. Há 30 anos, cheguei a Londrina com um sonho igual parecido com o seu. Prestei o vestibular para Jornalismo na UEL e fui aprovado. Durante muitos anos, caminhei sozinho pelas noites de Londrina, e por isso não posso deixar de me identificar com você. Mas, no tempo em que circulava pelas noites, eu era apenas um boêmio; você, ao contrário, era um trabalhador.
Infelizmente, Hannan, não poderemos mais trabalhar juntos no jornal. E sabe por quê? Porque as nossas doutas autoridades inventaram um negócio chamado “audiência de custódia”. Se essa aberração não existisse, é muito provável que o seu assassino não estivesse livre e solto para lhe matar com um cadarço.
Às vezes, Hannan, eu acho que um milagre estar vivo neste país que protege os criminosos e condena as vítimas. Fernando teve um crime sem castigo; você e o Fábio receberam o castigo sem crime.


