Flores para uma flor
Renata, universitária tímida, recebe um buquê de flores amarelas de um admirador misterioso
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de maio de 2019
Renata, universitária tímida, recebe um buquê de flores amarelas de um admirador misterioso
Paulo Briguet 
Renata assistia a seriados românticos na TV escondida como um dissidente russo que lia poemas anticomunistas na época de Brejnev. Estava no terceiro ano da faculdade, mas não era muito popular entre os colegas. Tímida, de óculos, cabelos presos, parecia estar sempre vestida da mesma forma. Pelos corredores da universidade, andava olhando para os lados, nem tão rápido que transmitisse a impressão de estar com medo, nem tão devagar que parecesse provocação. Só os mais simpáticos a cumprimentavam, e eram poucos.
Ela tentava impressionar os colegas de classe expressando opiniões ousadas — que, na verdade, eram as mais convencionais possíveis, segundo o código progressista do ambiente universitário. Seu maior medo era parecer conservadora ou moralista diante dos outros, e era exatamente o que os outros pensavam dela.
Naquele dia, Renata chegou atrasada à aula de sociologia. O professor havia formado duplas para o trabalho cujo tema seria “Pensamento Crítico na Pós-Modernidade: Diversidade e Resistência em Tempos Sombrios”. As duplas já estavam todas formadas. Léo, com quem Renata sonhava em formar dupla algum dia, já tinha escolhido sua parceira, Dandara. Os melhores autores de referência — Foucault, Marcuse, Zizek, Piketty, Gramsci e Karnal — também já não estavam mais disponíveis. Restaram-lhe um tal de René Girard e o mais bobo colega de turma, Matias. Sempre Matias, o gordinho conservador. Para piorar, o tal Girard era desconhecido e católico.
Quando voltou para casa, o porteiro avisou:
“Dona Renata, tem encomenda pra senhora.”
Ela se incomodava por Rosinaldo chamá-la de “senhora”. Afinal de contas, era jovem e solteira. Mas já desistira de reclamar; encarava o tratamento formal como um daqueles fatos inevitáveis da vida.
Ainda com aquele “senhora” atravessado na garganta, Renata sobressaltou-se: a encomenda era um buquê de flores amarelas. Tulipas límpidas, frescas, viçosas, com uma cor tão viva que parecia irreal. E vinham acompanhadas de um cartão, que ela leu silenciosamente diante do sorriso cúmplice do porteiro. O cartão continha somente uma frase, escrita com letra cursiva e tinta verde:
Flores para uma flor.
“Eu não sabia que era seu aniversário, Dona Renata”, comentou Rosinaldo.
Não era. Renata ficou tão feliz que imediatamente postou a foto das flores e do cartão no Facebook.
No entanto, Dandara curtiu a postagem com uma risadinha e escreveu um comentário:
“Renatinha, acho que eu tô reconhecendo essa letra.”
Em pouco tempo, a postagem encheu-se de piadas, memes e KKKK. Matias foi o único que saiu em defesa da colega. Ele jamais acreditará na versão de que Renata mandou flores para si mesma.
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