Fernando Pessoa não viu a churrasqueira
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quinta-feira, 21 de março de 2019
Paulo Briguet 

Marcão tinha 17 anos. Marcelinho, 16. Corintianos roxos, eram tão diferentes no tamanho que não pareciam irmãos. Estudávamos juntos desde a 6ª série, em Araçatuba. Certo dia, no intervalo das aulas do 2º colegial, alguém trouxe a notícia de que havia acontecido um acidente na Rodovia Castelo Branco. Marcão teve morte imediata; Marcelinho foi internado em estado gravíssimo e morreu dias depois.
Aquele foi meu primeiro contato com a morte de duas pessoas tão jovens e tão próximas. Certas vezes eu acordava no meio da noite, achando que tudo havia sido um sonho. De manhã, caminhando para a escola, eu me flagrava pensando que os dois irmãos estariam juntos na aula de matemática do Zé Fernando. Mas não estavam.
Dr. César, o pai dos meninos, conversava com o cachorro. Passava horas na varanda, ao lado do cão policial; acariciava-lhe o pelo e contava histórias em voz baixa. O bicho olhava o médico com amor e pena; também tinha saudade dos meninos, esperava que um dia eles entrassem falando e rindo por aquela varanda, com suas mochilas. Em poucos dias, Dr. César envelheceu alguns anos.
Era o ano de 1986. Sarney havia lançado o Plano Cruzado e prometia acabar com a inflação. A TV repetia o dia inteiro: “Tem que dar certo”. Os preços foram congelados, mas os produtos sumiram das prateleiras. Lembro-me de um debate no Congresso entre o ministro da Fazenda, Dilson Funaro, e o senador Roberto Campos. Todos nós torcíamos pelo Funaro e execrávamos Campos. Estávamos redondamente enganados: o Cruzado não deu certo e a inflação voltaria com toda força. Roberto Campos tinha razão.
Um grupo de estudantes do colégio foi acampar em Panorama, à beira do Rio Paraná; eu estava entre eles. Por mais que procurássemos, não conseguimos encontrar cerveja. O jeito foi comprar um estoque de Prosanto, uma cachaça que vinha em sacolinhas plásticas. Na primeira noite, em volta da fogueira, bebemos Prosanto. Fui levado para a barraca por dois colegas; no caminho, lembrei-me de algo que havia lido pouco depois da morte de Marcão e Marcelinho. Em tom de confidência, disse aos que me amparavam:
“Fernando Pessoa não viu!”
“Não viu o quê, Paulo?”
Olhei ao redor e vi alguns pedaços de carvão que fumegavam, duplicados. Concluí:
“Fernando Pessoa não viu... A CHURRASQUEIRA!”
Por um momento, achei que os rapazes que me levavam eram Marcão e Marcelinho. Eles riram muito e depois foram embora, no meio do sonho.
Tudo isso aconteceu há 33 anos; pode ser que tenha sido diferente, mas foi assim que ficou na minha memória.


