Entrai pela porta estreita
Quem passa pela porta estreita deve estar sozinho; não existem caminhos coletivos para a salvação
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quarta-feira, 28 de agosto de 2019
Quem passa pela porta estreita deve estar sozinho; não existem caminhos coletivos para a salvação
Paulo Briguet 

Um seu best-seller “12 Regras para a Vida”, o psicólogo canadense Jordan Peterson dá preciosos conselhos para a sobrevivência cotidiana na sociedade moderna. Talvez a mais importante regra seja a número 7: “Busque o que é significativo, não o que é conveniente”. Raras vezes um autor não religioso chegou tão perto de compreender a essência da mensagem cristã como Peterson nesse capítulo de sua obra.
No domingo passado, o Evangelho da missa me fez pensar na regra número 7 de Peterson. Trata-se da passagem na qual Jesus diz: “Façam todo o esforço possível para entrar pela porta estreita, porque eu lhes digo: muitos tentarão entrar, e não conseguirão”. (Lc 13, 24)
A nossa tendência é sempre seguir a lei do menor esforço e buscar a porta larga, por onde é mais fácil passar. A porta larga representa os prazeres, as riquezas, os confortos, os elogios fáceis — tudo aquilo que é conveniente. A porta estreita, de outro lado, simboliza os sacrifícios, as renúncias, o trabalho árduo, as incompreensões — tudo aquilo que é significativo.
As coisas realmente importantes na vida exigem sacrifício e renúncia, tentativa e erro, arrependimento e perdão. Sempre que você vê alguém realizando algo de significativo para as outras pessoas, pode estar certo de que aquilo custou noites insones, suor, sangue, lágrimas, tempo e dedicação. Nada que realmente mereça a nossa atenção veio do nada, por geração espontânea. Em toda obra e realização humana que permanece, há uma história oculta de sacrifício.
“Façam todo o esforço possível para entrar pela porta estreita.” O Templo de Jerusalém, na época de Jesus, tinha várias entradas. Como bem lembrou o padre na sua homilia de domingo, uma delas era a porta estreita, por onde entravam os cordeiros para o sacrifício. É justamente a essa porta que Jesus se refere na passagem no capítulo 13 do Evangelho de São Lucas.
Quem passa pela porta estreita deve estar sozinho; abandone, portanto, a ilusão de que existem caminhos coletivos para a salvação. Em grupo, você só conseguirá entrar no Inferno. Você não será salvo por sua classe social, por sua etnia, por seu partido, por seu movimento, nem mesmo por sua religião. Você será salvo individualmente, ao aceitar uma Pessoa chamada Jesus Cristo.
A porta estreita exige também que cada um de nós abandone uma das mais poderosas ilusões modernas: a da busca pela felicidade a qualquer preço. Para atravessar a porta estreita, o importante não é ser feliz, mas ser bom. A felicidade virá apenas como um subproduto da sua busca pessoal por um sentido na vida. “Quem quiser ganhar a sua vida, irá perdê-la.”
Desde a infância tenho um sonho recorrente: com enorme dificuldade, tento passar por uma porta estreita, a fim de me libertar de alguma ameaça terrível. Um dia, eu descobri que essa pequena passagem guarda certa semelhança com a porta da Igreja da Natividade, em Belém. Para passar por ela, o homem precisa imitar Jesus, e esvaziar-se de si mesmo. Precisa perdoar, ou seja, perder o ar que lhe estufa o peito. E por fim, talvez, lhe será necessário ficar de joelhos, do tamanho de uma criança. Só assim você passará por aquela porta.


